Crônica: A menina que não emprestava livros

Livro Doce Perdão

Ellen CostaWritten by: Crônicas Literatura

Aquela professora desaforada não gostava de leituras. Talvez nunca tivesse lido uma receita de bolo caseiro ou nem mesmo o horóscopo no jornalzinho do trem. Não tinha muita paciência com os alunos pequenos de quem cuidava e vivia em função dos quinze minutos de intervalo.

Ela se queixava diariamente do filho, uma criança de sete anos que, segundo ela, era destrutivo e parecia um trator. Quando chegava do trabalho, o menino já tinha colocado a casa abaixo sem nenhuma dificuldade. Sujava as paredes, quebrava os brinquedos, deixava pratos e copos sujos sobre a mesa. Era terrível.

PJ estava radiante com a leitura do seu novo livro e, diferente da colega professora desaforada, amava cuidar das crianças e se divertia dedicando seu tempo a ajudar aqueles pequenos anjinhos, como costumava chamar. O livro foi presente de uma amiga e ela não via a hora de concluir as últimas páginas que faltavam.

Quando chegou à escola naquela manhã de quarta-feira, com o livro numa mão, a bolsa na outra e o sorriso contagiante de sempre no rosto, foi interpelada pela colega.

– Que livro é esse?

– Ah, é uma história muito interessante… chama-se “Doce Perdão”. Estou gostando mui…

Antes que conseguisse expressar seu sentimento pela leitura que fazia, foi interrompida bruscamente.

– Você me empresta?

– Ainda não concluí a leitura. – respondeu pausadamente e meio sem jeito.
– Termina quando? Me empresta depois? – Insistiu a colega.

PJ já suou frio. Estava cansada de ouvir a outra dizer que não tinha tempo para leituras, porque quando chegava em casa precisava fazer o jantar, arrumar a casa e ainda tinha aquele filho terrível para controlar. Em que momento iria conseguir realizar a leitura do livro?

– Tá… se você esperar uns dias, eu vou ver…

– Mas só faltam algumas páginas. – Foi interrompida novamente. – Acha que demora tanto assim? Não consegue concluir hoje e trazer amanhã? – Insistiu, como se PJ tivesse a obrigação de acelerar a leitura e passar o livro adiante.

PJ já estava com vontade de voar no pescoço dela. Que mulher mais inconveniente e abusada! Não gostava de leituras, todos ali sabiam. As únicas leituras que fazia eram aquelas relacionadas às fofocas das novelas. Ela não gostava de livros, mas de aborrecer a colega, gostava.

O sinal tocou e ambas precisaram assumir seus postos.

PJ trabalhava e, ao mesmo tempo, tentava pensar numa estratégia para se livrar daquela enrascada. O que poderia dizer ou explicar para não deixar seu doce livro nas mãos daquela mulher amarga? Não podia emprestá-lo e correr o risco de não tê-lo de volta. Não podia se desfazer de um presente tão carinhoso. Também não podia mentir.

Deus, o que faria?

Quando mandou mensagem para a amiga à noite, no final do expediente, estava desesperada.

– Acho que me meti numa enrascada. – Disse ofegante ao telefone.
– Nossa, o que foi? – A amiga não entendeu nada e ficou até preocupada com o tom de voz dela.

Contou a situação e já não sabia mais o que fazer. Pensou em ficar “doente” por uma semana, mas as aulas tinham acabado de voltar. Pensou em pedir transferência de escola. Que tal ir para outra unidade onde não tivesse mais contato com a colega usurpadora? Pensou em mudar de horário, de sala, de andar, de prédio…

De uma coisa ela sabia bem: não podia entregar seu bebê nas mãos de uma troglodita como aquela que ainda tinha um filho com histórico de pré-terrorismo. E se ele sujasse ou rabiscasse o livro? E se arrancasse ou amassasse alguma página? Talvez voltasse só a capa do livro e já conseguia até imaginar a postura desleixada da professora:

“Nossa, não estava assim antes? Juro que não sei o que houve”.

Jura mesmo? Que raiva dessa mulher! Sua irresponsável!

PJ queria se enfiar num buraco. Na noite anterior praticamente colocou sua estante abaixo à procura de um livro que pudesse “emprestar” e que não faria seu coração se partir em mil pedaços, caso não o tivesse de volta. “A metamorfose”, “Primo Basílio”, “Iracema”, “A volta ao mundo em 80 dias”. Já sei: vou levar um livro do Ítalo Calvino. Ela com certeza vai achar uma leitura densa.

Imagem: Internet

No dia seguinte, durante o intervalo da aula, ouviu a colega contando para outra professora que PJ iria lhe emprestar o livro. Naquele dia, especificamente, ela havia levado outro livro na bolsa para tentar despistar a bruxa apropriadora de livros alheios. Queria sacar qual era a intenção da colega.

– Ela já tá acabando a leitura e vai me emprestar. Aliás, já deve ter acabado, eu acho. – Sentiu a pressão no tom de voz da professora.

– Ah, que legal. – Comentou a outra sem dar muita atenção.

PJ queria colocar fogo naquele refeitório com aquela mulher dentro dele.

No final do expediente, quando estava pegando suas coisas no armário ouviu a voz da colega logo atrás de si.

– Já posso levar hoje?

– Levar o quê? – Perguntou, como se não soubesse do que se tratava.

– O livro, claro.

– Mas ainda não terminei.

– Nossa, você está demorando muito! – Resmungou e deixou PJ com uma vontade de mandá-la ir “catar coquinhos”.

– E esse outro aí, é sobre o quê?

– Ah, esse é uma história…

– Deixa eu levar esse, então. – A colega a interrompeu de novo e pegou o livro rapidamente do armário.
– Não sei se é o tipo de leitura que você apreciaria…
– Não tem importância. Pode ser qualquer um. Pra mim tanto faz.
– Mas que tipo você gosta?
– Qualquer um! – Respondeu de forma desleixada. – Posso levar?

A jovem não queria emprestar nem esse nem qualquer outro. Na verdade, queria que aquela mulher fosse abduzida por jupterianos e se esquecesse que se conheceram um dia. Mas ela também estava, de certa forma, aliviada por ter se esquecido do outro livro.

– Quanto tempo você leva para ler? – Já queria saber por quantos meses ou décadas duraria seu sofrimento.
– Não sei. – Resmungou folheando as páginas.
– Ele é um pouco grossinho – Disse a fim de desanimá-la…
– Nossa, e não tem figuras! – Reclamou a professora… – Mas tudo bem, vou ler mesmo assim. – Disse finalmente, de forma entusiasmada.

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PJ estava rendida. Era emprestar e ver no que ia dar. Não havia outra alternativa. Talvez estivesse julgando mal a colega. Talvez ela fosse uma mulher amarga e vazia justamente por não ter amigos, colegas que lhe emprestassem os ouvidos… e os livros…

Quase não dormiu aquela noite, pensando no livro que nunca mais veria. Imaginou o filho da colega rasgando as páginas, desenhando na capa, comendo bolacha recheada sobre ele ou jogando-o em qualquer canto sem importância. A colega nem perceberia, afinal, tinha os afazeres da casa para cuidar.

Enfim… não havia mais o que fazer… o pobre livro já não estava mais sob seu domínio e cuidados. Era refém de uma louca sem precedentes.

No dia seguinte estava no terminal. Faltavam cinco minutos para chegar seu ônibus, quando percebeu uma voz masculina e familiar próxima ao seu ouvido.

– PJ, como você está? Quanto tempo! – O rapaz disse, afetuosamente.
– Estou bem… e você?

Ela se lembrou de algumas conversas que tiveram e do quanto aquele rapaz, agora um homem, era um cara legal. Bom partido, responsável, bonito… e interessado nela. Chegou até mesmo a ir em sua casa na intenção de se apresentar aos pais dela. Queria que eles soubessem que suas intenções eram sérias e boas. Como ela não correspondeu ao seu interesse, acabaram se afastando.

Mas agora ele estava ali, diante dela, anos depois… e continuava simpático, sorridente, charmoso, com um olhar encantador… e uma aliança gritante em sua mão esquerda. Já tinha até um filho, ele contou logo no início da conversa.

Ela ficou feliz por ele… viu a foto da criança e da esposa e pensou como seria…

– E quanto a você? Já se casou? – Teve seu devaneio interrompido a contragosto.

Nossa! Quanta opressão logo cedo! Não, querido, estou tentando bater o recorde do celibato… e daí?  

Não bastava ter perdido a noite de sono preocupada com o destino de seu pobre livro e agora, para piorar, ainda tinha que responder a essa pergunta tão desnecessária às 6h45 da manhã. Como ela queria fazer o tempo congelar. Ou quem sabe se teletransportar para outra galáxia.

Seu ônibus chegou. Salva pelo motorista de todos os dias, graças a Deus!

Uma semana depois, nada da colega comentar sobre o livro. Se leu, se não leu, se o filho havia queimado ou jogado no barranco. Nada.

A ansiedade e a preocupação de PJ só aumentavam. Já tinha feito até “missa de sétimo dia” para seu livro amado. Que descanse em paz!

No final da tarde, quando pegava suas coisas no armário, a colega se aproximou.

– E aí, já terminou aquele outro livro? – quis saber curiosa

Por que ela queria saber disso? Se ainda nem devolveu o primeiro que emprestei, aliás, que foi praticamente arrancado de minhas mãos…

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– Terminei. Mas…
– Qual era mesmo o nome dele? – Uma nova interrupção brusca.
– Doce perdão…
– Ah, depois você me empresta? – Pediu novamente, abrindo a bolsa na sua frente e sacando o outro livro, que parecia inteiro numa primeira e rápida olhada.
– Mas você já concluiu a leitura desse…?
– Ah, não. Achei chato demais. Li umas duas páginas e achei muito maçante. Aliás, não tenho tempo para leituras. Levo duas horas no ônibus, e quando consigo um lugar para sentar, logo durmo.

Bingo! Era exatamente o que te disse da outra vez, que você não tinha tempo. – PJ se sentiu vitoriosa.

– Tá aqui seu livro. – Entregou-o. – Se a leitura fosse um pouquinho melhor, talvez eu tivesse conseguido chegar na página dez ou quinze. – Gargalhou como se estivesse se justificando.
– Ok, obrigada por devolver. – Disse aliviada, soltando fogos de artifício em seus pensamentos como na entrada do ano novo.
– Mas quando der, traz o outro. – Ela não desistia de ser inconveniente.
– Claro, vou ver.
– Esse outro eu quero ler… Como é mesmo o nome?

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Tags:, , , , , , , , , Last modified: agosto 18, 2021
Ellen Costa

Ellen Costa é jornalista e escritora. Apaixonada por ouvir e contar histórias. Autora dos livros "Baque: você tem coragem de descobrir a verdade?" e "Crônicas da vida real", ambos disponível em e-book na Amazon. Idealizadora do Arte de Escrever. Instagram @ellencostaescritora