Pequenas tramoias

Ellen CostaWritten by: Crônicas Destaque

Nathália estava pegando suas coisas na mesa de trabalho e desligando o computador, quando uma colega que ela costumava cumprimentar às vezes em que encontrava no corredor da empresa, mas com quem ainda não havia estabelecido nenhuma conexão ou amizade, se aproximou dela, totalmente constrangida.

– Oi, desculpe. Será que pode me ajudar?

A secretária executiva tirou os olhos de seus pertences e direcionou sua atenção à moça.

– Claro. Algum problema?

– É que eu esqueci minha carteira em casa hoje e não tenho o dinheiro completo para o ônibus.

– Nossa, é isso? Achei que era algo mais grave! – ela brincou, tirando as mãos do peito em sinal de alívio, a fim de também quebrar a tensão da cena, já que visivelmente a jovem demonstrava vergonha ao pedir dinheiro emprestado a uma desconhecida.

– Só tenho dois reais e cinquenta centavos… e a passagem é quatro e cinquenta. Preciso de dois. – ela mostrou o dinheiro na palma da mão.

Abrindo a carteira sem hesitar, Nathália logo resolveu o problema que afligia a colega, estendendo-lhe cinco reais. E ela, agradecida, mas ainda de cabeça baixa, entregou-lhe a cédula de dois reais de volta.

– Amanhã eu pago sem falta. – foi firme. – Muito obrigada!

– Imagina. Que bobagem!

A moça deu meia volta e saiu pelo longo corredor. Nathália sentiu-se bem ao ajudá-la.

Nas semanas seguintes, elas mal se viram nas dependências da empresa.

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Mas naquele dia, no horário do almoço, quando Nathália estava à mesa com vários colegas da sua equipe e de outros setores, a tal colega adentrou sozinha no refeitório.

Sentiu suas bochechas queimarem ao ver Nathália sentada ali, conversando e sorrindo com vários amigos de trabalho. Embora tenha sido convidada pelos olhos da colega a também se juntar ao grupo que almoçava, preferiu fingir não entender a deixa e pegou sua bandeja de almoço, indo para o outro lado do recinto.

“Eu não devolvi os dois reais emprestado da moça”, foi o que Nathália cogitou que ela possa ter pensado. “Mas que bobagem isso. O que são dois reais?”. Ela logo espantou essa ideia e continuou concentrada no almoço e na conversa.

A jovem do outro lado do refeitório almoçou rapidamente e em menos de 15 minutos desapareceu da frente de todos. Assim que saiu, no entanto, alguns colegas da mesa começaram a comentar sobre ela.

Nathália, então, perguntou se eles a conheciam, afinal, nem seu nome ela sabia.

Quase todos à mesa começaram a rir.

– Eu só conheço de vista! – Nathália disse sem entender o motivo de tanto deboche. – Outro dia ela não tinha o dinheiro da passagem completo e me pediu dois reais emprestados. Acho que ficou sem graça ao me ver aqui… mas eu disse que não precisava devolver. – ergueu os ombros.

Após dizer isso, alguns colegas simplesmente gargalhavam apontando para ela.

– O que foi gente? Não estou entendendo nada. Qual é o problema? – ela já começava a se irritar.

E foi aí que o golpe da passagem foi revelado pelo grupo de colegas de trabalho.

Segundo contaram, aquela moça já havia dado o mesmo golpe em quase todos ali presentes. A mesma conversa de ter esquecido a carteira em casa, sempre escolhendo estrategicamente alguém que estivesse sozinho no final do expediente. E com cara de embaraço expunha sua precisão de dois reais emprestados para o ônibus. Quando mudava um pouco a desculpa, dizia que o banco estava longe e se fosse até lá para sacar dinheiro, iria perder a condução.

Fato é que quase todos ali já haviam perdido dois reais, compadecidos da pobre moça caloteira. Nathália foi apenas mais uma que caiu naquela tramoia.

Depois de compartilharem e rirem muito, só restava uma dúvida no ar: quem seria o próximo?

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Tags:, , , , , , , , Last modified: julho 2, 2021
Ellen Costa

Ellen Costa é jornalista e escritora. Apaixonada por ouvir e contar histórias. Autora dos livros "Baque: você tem coragem de descobrir a verdade?" e "Crônicas da vida real", ambos disponível em e-book na Amazon. Idealizadora do Arte de Escrever. Instagram @ellencostaescritora