Série Estado Zero: cada um tem (a sua) história para contar

Ellen CostaWritten by: Destaque Séries

Conferi neste último fim de semana a minissérie de seis episódios da Netflix chamada “Estado Zero” ou Stateless (no original). Embora tenha estreado em 2020, até então eu não conhecia.

A trama se passa na Austrália, mais precisamente dentro de um campo de refugiados (ou prisão) para imigrantes ilegais. Aos poucos vamos sendo apresentados aos personagens que se sobressaem aos nossos olhos, cada um com uma história peculiar e dramática para contar.

Além do tema principal ser extremamente interessante e atual – a tentativa de famílias (em geral de origem mulçumana) tentando asilo em outros países para fugir dos horrores de seu próprio país de origem – o segundo ponto alto da série (na minha opinião) foi ela passear pela história de vida, o ponto de vista e as dificuldades que todos os envolvidos neste sistema vivem, dentro e fora daquele lugar.

Há mais vítimas do que imaginamos! E versões de uma mesma história!

É claro que as famílias “presas” em Bartex à espera de seus vistos de liberdade é o que mais nos toca e gera atenção e empatia. Até porque eles não estão alojados em um hotel cinco estrelas. Muito pelo contrário. De fato, estão em uma espécie de prisão e são tratados, e muitas vezes submetidos à condição de prisioneiros perigosos. A comida é precária, o tratamento dos guardas é grosseiros, os alojamentos são miseráveis. E no fundo só o que eles desejam são melhores condições de vida em outro país.

Por esta premissa, já dá para imaginar o que saltará aos nossos olhos, certo?

Os personagens nos cativam

Uma jovem australiana chamada Sofie Werner, comissária de bordo bem-sucedida e com uma família muito rígida, está exausta de tantas cobranças e falta de compreensão por parte de seus pais. Em razão disso, ela se junta a um grupo de dança (no formato de autoajuda/coaching) que lhe promete liberdade e libertação de suas amarras. Mas a que preço?

Aos poucos, no entanto, esse convívio também contribui para que a moça se deixe enveredar por caminhos tortuosos, tendo comportamentos desregrados e exagerados, a ponto de se vê perdida e abandonada, e culminar no Centro de Detenção Baxter.

Neste momento, ela assume a identidade de outra mulher, de origem alemã, e deseja desesperadamente voltar para sua casa, na Alemanha (bem longe de sua família real). A história de Sofie é bem construída e nos segura pela curiosidade, a fim de entendermos o que de fato aconteceu com ela e porque deseja se afastar da realidade.

Personagem principal, Sofie Werner.

Outro núcleo trata da história de um pai e sua filha de 12 anos, afegãos, que foram enganados por um grupo de traficantes de pessoas e enviados para este lugar, sem compreensão ou credibilidade por sua origem.

Mas a série também traz outros núcleos muito interessantes: como o guarda/segurança da prisão (novo na profissão) e empolgado pelo bom salário e oportunidades.

Ele logo se vê numa situação desconfortável ao se dar conta da maneira como sua líder imediata trata as pessoas ali – como se fossem realmente bandidos perigosos ou animais, com truculência e até mesmo violência exacerbada. Ele sofre sem saber como agir ou pensar e nós, aqui do outro lado da tela, também ficamos reféns das intransigências do sistema.

E há ainda a nova diretora que assumi para substituir uma outra profissional que foi afastada do cargo. A missão desta é colocar ordem no local e avaliar e agilizar os processos de análise para a liberação dos vistos. Além de manter a mídia bem longe de noticiar coisas negativas sobre o local, já que ele atrai muitos holofotes.

Mas como em qualquer sistema social/político este processo de normalização das atividades é demorado, burocrático e está sob os olhares dos jornais e dos direitos humanos.

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Outros destaques da série

Alguns dos personagens.

Nesta mesma ponta há ainda uma ativista que luta pela liberdade e dignidade dos refugiados e um jornalista que faz denúncias e está sempre antenado com tudo que ocorre depois dos portões. Ambos lutam pela liberdade daqueles “prisioneiros” e são rechaçados por isso.

A série tem um ritmo muito interessante, segura bem alguns mistérios, traz o drama peculiar de cada personagem/família na medida certa. E apresentar o ponto de vista e as vivências de cada personagem em suas potencialidades e fraquezas faz desta narrativa seu ponto alto.

O final do episódio 5, confesso, me arrancou algumas lágrimas. Empatia nível hard!

Por fim, mas não menos importante, a série é baseada na história real de Cornelia Rau (a personagem de Sofie), confinada durante 10 meses no local. Esse ocorrido serviu como uma espécie de denúncia social e deu projeção aos problemas inerentes aquele sistema.

A série foi produzida pela maravilhosa Cate Blanchett (a inesquecível Galadriel) de “O Senhor dos Anéis”, e estrelada por Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale). Também conta com Dominic West no elenco, entre outros talentos.

A série está disponível na Netflix e tem apenas 6 episódios.

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Tags:, , , , , , , , , Last modified: julho 6, 2021
Ellen Costa

Ellen Costa é jornalista e escritora. Apaixonada por ouvir e contar histórias. Autora dos livros "Baque: você tem coragem de descobrir a verdade?" e "Crônicas da vida real", ambos disponível em e-book na Amazon. Idealizadora do Arte de Escrever. Instagram @ellencostaescritora