Resenha: “Ensaio sobre a morte” é a dura realidade de tantas famílias

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Sabe quando você lê uma obra de ficção que parece ter acontecido com sua vizinha ou com a família de uma colega da faculdade? Foi assim que me senti ao ler o livro “Ensaio sobre a morte” da autora paulista Rosane Ribeiro, advogada, mãe, moradora de Sergipe.

Vi uma resenha em vídeo desse livro (uma indicação de leitura, sensível e reflexiva) e o título da obra me despertou muito interesse, afinal, ele abre alguns precedentes.

Quando me deparei despretensiosamente nas páginas do primeiro capítulo, na intenção de apenas conhecer a escrita da autora, fui imediatamente fisgada pelo drama tão peculiar que aquelas páginas prometiam.

E que drama!

Capa do livro.

Rosane Ribeiro faz um relato duro, pouco adjetivado, despido de julgamentos (e isso foi o que mais me impressionou e sensibilizou na narrativa) de quatro gerações da mesma família. O texto é quase em formato jornalístico (no sentido de oferecer uma sequência de fatos e situações) encadeadas da vida real, que parecem estar diante de nossos olhos todos os dias, inevitavelmente, mas que por razões diversas nós seguimos sem “nos importar”.

A premissa traz a história de Felipe, um garoto de 12 anos que vive os dilemas e as dificuldades inerentes a um menino dessa idade: sente-se sozinho no mundo, desprezado e agredido pelo bullying dos colegas na escola, mau tratado pela violência do pai (que o castiga severamente quando julga necessário) e vítima da omissão da mãe, que até tenta interceder por ele em alguns momentos, mas que também é frágil e fragilizada do contexto familiar desestruturado.

Ele ainda amarga a solidão que se permite viver como refúgio seguro para sua existência sem sentido e nutre raiva e ciúmes pelo irmão mais novo que tira vantagens sobre ele em quase todas as situações familiares.

Até aí, parece uma narrativa comum e cotidiana, certo? Mas não é. Podem acreditar.

Felipe e tantos outros adolescentes da vida real. Imagem: Pexels.

Acompanhar as frustrações, dores, mágoas e incompreensões de Felipe (uma criança entrando na fase mais difícil da vida, a adolescência) pelo olhar e percepção da realidade limitada que ele tem – de um garoto de 12 anos no olho do furacão, de certa forma, nos torna cúmplices da vida fatigada que ele leva e das consequências que virão assolá-lo brevemente. É por isso que a história se mostra tão próxima de nós.

É como se ele fosse nosso vizinho da casa da frente ou do lado, que a gente acha calado e esquisito demais, quando na verdade há um ode de desespero e pedido de socorro estampado bem em sua testa. Mas nós não conseguimos enxergar – já temos nossos próprios problemas para lidar e resolver todos os dias. A vida também é dura conosco!

E quando ao término da história desse menino, quatro capítulos à frente, somos convidados a mergulhar na mesma história, mas agora um pouco antes – do passado da mãe dele (quando também era tão jovem quanto ele), percebemos que Felipe é apenas a ponta do iceberg. Um soco no estômago é desferido contra nós, daqueles que exigem alguns minutos para retomar o fôlego.

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E é muito fácil sentir raiva das atitudes de Isabela, mãe de Felipe, quando encaramos apenas o primeiro capítulo do livro. E ao nos depararmos com a narrativa pelo olhar dela também temos vontade de chacoalhá-la para fazê-la despertar do transe que está vivendo (e do qual nem se dá conta).

E quando a geração anterior surge (pai da Isabela, avô de Felipe), vivemos novamente um misto de sentimentos e emoções, do zero ao dez em menos de 15 páginas. Nosso mundo fica pequeno diante do vasto universo de quatro gerações que clamam por socorro desenfreado.

Quando voltamos alguns anos antes e depois mais algumas décadas antes, vamos vendo a história que se repete ecoando aos gritos para alguém dar um basta naquilo tudo. Mas os personagens são incapazes de ouvir. Apenas nós somos alcançados.

A leitura de “Ensaio sobre a morte” é incômoda do início ao fim porque se não fosse, não cumpriria sua proposta; a escrita é firme, sem metáforas ou floreios, descritiva na essência, rotineira, cíclica, bem construída. Isso foi o que mais me tocou: o looping que se repete e nos joga dentro da história.

Como é possível encerrar o ciclo do fracasso, da violência, da perda, da mágoa, da omissão, das mazelas que nos fazem pensar “e se eu tivesse agido de outra maneira, se tivesse ouvido, perguntado, dito não, dado um basta, sido mais compreensiva, observadora, empática, sensível”?

E se eu tivesse apenas dito que não queria, que precisava de algo mais, que merecia consideração, que não aceitava menos do que respeito?

Bem longe daqui. Imagem: Pexels.

Não há respostas fáceis para as questões que o livro levanta. E talvez, tão ou mais importante que as respostas, seja pensar nas perguntas que ele faz. Esses questionamentos tornam a narrativa necessária e atual.

Por mais que nos compadeçamos com as histórias abordadas nesse drama familiar de gerações, se a leitura de “Ensaio sobre a morte” não imprimir em nós pelo menos tristeza e desejo por dias melhores, então a morte já alcançou nossa existência de maneira irremediável.

Para saber mais sobre a autora e sobre o livro, siga-a no Instagram: @rosaneribeiro_autora

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Tags:, , , , , , , Last modified: agosto 29, 2020
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Juh Oliveira (Ellen Costa) é jornalista e escritora. Apaixonada por ouvir e contar histórias. Autora de "Baque: você tem coragem de descobrir a verdade?", thriller psicológico disponível em e-book na Amazon. Idealizadora do Arte de Escrever. Instagram @ellencostaescritora