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Resenha: Meia noite em Paris – linda homenagem às artes e à literatura dos anos 20

Paris despertando lentamente ao som do clarinetista Sidney Bechet. É assim que Woody Allen dá início ao filme “Meia Noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011). Com mais de US$ 75 milhões arrecadados em todo o mundo, o longo quebrou os recordes obtidos por seu diretor logo nas primeiras semanas de estreia nos Estados Unidos. Superou, inclusive, Hannah e suas Irmãs, lançado em 1986, que até então era o filme mais visto de Allen.

Diretor Woody Allen. Imagem: Divulgação

Após uma linda cidade surgir diante de nossos olhos numa sequência de cartões-postais, do nascer ao pôr-do-sol, com vários quadros distintos de sua rotina, gradativamente os personagens são introduzidos à trama. De férias em Paris e prestes a se casar, Gil (Owen Wilson) é um roteirista bem-sucedido de Hollywood que vive uma “crise de insegurança” tentando finalizar seu primeiro livro.

Para ele, que está escrevendo um romance e busca na cidade luz um pouco mais de inspiração para concluir a obra, Paris é a cidade perfeita para morar e se inspirar sempre. Infelizmente sua noiva Inez (Rachel McAdams) não enxerga da mesma maneira e quer apenas passar férias com a família e montar o enxoval do casamento. Ela não demonstra muito interesse pelo sonho do noivo (e também não o incentiva em relação a abandonar a profissão atual e mergulhar na literatura). A jovem está mais preocupada em morar em Malibu, nos Estados Unidos, e ter a vida do casal planejada como sempre desejou.

Durante um almoço na cidade, na companhia dos pais de Inez, ela reencontra um ex-professor e a noiva dele. A química logo eclode e os dois casais se juntam para realizar passeios que antes seriam apenas feitos por Gil e Inez. O problema é que o “simpático” e pseudo intelectual ex-professor de Inez (Michael Sheen) faz de tudo para se exibir e roubar suspiros e admiração de todos. Com isso, Gil fica apagado no grupo e mais entediado ainda.

O primeiro passeio que eles realizam juntos é justamente para conhecer as estátuas de Rodin, os Jardins de Versalhes. O chato rival não para de contestar as informações da guia turística do museu, interpretada pela discreta Carla Bruni, na intenção de mostrar o quanto é bem informado sobre tudo.

Cena do filme: guia turística do museu (Carla Bruni) e Gil (Owen Wilson)

Os dias e as horas vão ficando longas e chatas para Gil, que só pensa em aproveitar Paris, concluir seu livro e ficar na companhia da noiva. Mas nada disso acontece. Certa noite, após uma degustação de vinho, o casal de amigos quer sair para dançar. Inez está interessada em ir, mas Gil, não. Ele resolve voltar para o hotel a pé para passear pela cidade e conhecer um pouco da noite parisiense.

Bêbado e após rodar em círculos, percebe que está perdido e como não fala o idioma, não consegue se comunicar para pedir ajuda. Desanimado, resolve parar na calçada à espera de algum “milagre” ou até que o dia amanheça.

E o que Paris pode revelar quando o relógio brada à meia noite, apenas Gil (e nós, expectadores) consegue experimentar. Ao ser convidado a entrar num Peugeot clássico cheio de desconhecidos que estão a caminho de uma festa, o protagonista experimenta um mergulho na Paris dos anos 20, da “Era de Ouro”. E que mergulho!

Ele se depara-se com a possibilidade de não apenas conhecer os grandes escritores, poetas e inspirações literárias e artísticas que sempre admirou pela leitura e interpretação das obras que realizaram, mas pessoalmente, acompanhando os insight criativos daqueles que sempre foram suas maiores referências.

O protagonista vivendo um sonho na Paris dos anos 20, da “Era de Ouro”

É nesse momento que se percebe dentro de um grande sonho, que culmina no relacionamento e amizade com personalidades improváveis. Gil é levado a uma festa em homenagem ao cineasta francês Jean Cocteau e não acredita estar ouvindo Cole Porter ao vivo tocar piano e desenvolver uma conversa com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Eliot, Pablo Picasso e outros heróis, que circulavam por ateliês e cafés da cidade compondo suas obras, vivendo seus amores e conflitando suas relações.

Ainda ganha uma “fada madrinha” para lá de especial, disposta a ler seu manuscrito e opinar sobre a qualidade literária da obra: Gertrude Stein. Apresentado a ela por Hemingway, Gil não acredita na possibilidade

Ele se envolve tanto na experiência vivida na Paris dos anos 20 que vai aos poucos revendo seu próprio romance da vida real e colocando em xeque suas escolhas para o futuro. E a partir do momento em que conhece a sedutora e cativante Adriana, estudante de moda que veio a Paris para aprender com Coco Channel, começa a ter dúvidas sobre seus sentimentos em relação à noiva.

Adriana e Gil caminham durante a madrugada

Contudo se depara com a problemática de Adriana ser amante do temperamental e excêntrico Pablo Picasso, e ex amante de Modigliani e Braque. A jovem e bela moça não demonstra qualquer constrangimento em relatar tais fatos a ele. Além disso, o roteiro brinca ainda com Salvador Dalí, Man Ray, Luis Buñuel. Os diálogos e participações deles são hilárias.

Que Paris é uma cidade encantadora, todos sabemos (mesmo que ainda não a conheçamos de verdade). Mas apenas o público que assistiu ao filme pôde descobrir o quão delicioso, surpreendente, divertido e encantador essa linda produção de Woody Allen é. A história revela muitas surpresas e enigmáticas perguntas. E se observar Paris durante o dia já é mágico, durante a noite e na chuva, então, é para lá de encantador.

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Tags:, , , , , , , , , , , , Last modified: julho 6, 2020