O esmalte encantado (e outras histórias) de não amor (Parte 2)

Written by: Crônicas Destaque

Se você caiu nesta crônica de paraquedas, recomendo que depois volte uma casa para ler também a primeira parte desta epopeia pouco romântica (Parte 1), mas ainda assim, cheia de potencial. Afinal, toda boa tragédia merece contexto.

Como a vida é cheia de surpresas, na edição anterior descobrimos que trens da CPTM, supermercados com nome de país asiático, academias de bombados inveterados e até grupos de literatura que, em tese, apresentam premissas sólidas, escondem snipers extremamente determinados a mudar o fatídico estado civil desta cronista. Ou não!

Até pedido de casamento eu já recebi, embora o cidadão sequer soubesse o meu nome. Mero detalhe, certo? Nós, mulheres, somos muito exigentes! Para ler a parte 1, clique aqui.

Esta parte 2 nasce no dia seguinte ao Brasil x Noruega. Se o texto parecer um pouco melancólico ou passivo-agressivo, a culpa não é minha. É de quem achou uma boa ideia acabar com o sonho de um país inteiro em vergonhosos 90 minutos.

O universo, generoso e irreverente, ao tentar amenizar aquele evento traumático, resolveu mandar um vento de consolação travestido de entregador de encomendas.

Em plena segunda-feira de luto, pedi um motoboy para levar algo para a minha mãe e, minutos depois, ela me mandou um áudio às gargalhadas.

— O que houve, mama? —  Eu logo quis saber.

Ela se adiantou a relatar:

—  Sabe o motoboy entregador? Eu desci para atendê-lo e ele, muito conversador, perguntou qual o nosso parentesco. Eu respondi que sou sua mãe.

— E?

—  Ele disse: a senhora está de parabéns! Sua filha é muito educada, linda, e foi muito gentil comigo.

Detalhe importante: eu não estava arrumada, tãopouco maquiada, e conversei com ele, se muito, por um minuto e meio. Mas que bom que causei uma impressão tão boa.

Sinceramente? Ou ele olhou para mim e projetou a maravilhosa Gisele Bündchen ou o destino tentou me devolver parte do sorriso roubado pelo gigante-Golias-Halaand, aquele indecoroso.   

Quando achei que os astros finalmente tinham encerrado sua coleção de episódios improváveis, eles resolveram mostrar que era apenas um rápido intervalo.

Querido leitor, puxe outra cadeira.

O esmalte encantado continua fazendo vítimas. Ou melhor… Continua produzindo (boas) histórias.

Leia outras crônicas de Ellen Costa:
– O esmalte encantado (e outras histórias) de não amor (Parte 1)
A incansável e destemida anunciadora de tragédias
As aventuras românticas e (tardias) de Julimara

O príncipe encantado dos Danones

Quem trabalha em modelo híbrido conhece uma das maiores alegrias da vida adulta. A música que indica o carro dos ovos em promoção (a Gracyanne Barbosa não é a única comedora de ovos do planeta), o carro da pamonha para adoçar a vida. Pães salgados e doces e por aí vai.

E, no meu bairro, em especial, havia também o glorioso carro dos laticínios em promoção. Danome, iogurte, Activia, requeijão…

Microfone ligado. Caixa de som no último volume.

“Olha o iogurte! Olha o Danone! Bandeja com 6 unidades pela metade com preço. Pague duas cartelas e leve três!”.

E por aí se seguia.

A memória afetiva de uma criança sem recursos, agora vivida por uma adulta que poderia comprar o carro todo (é uma hipérbole, ok?).

Ele era praticamente um locutor esportivo narrando derivados do leite. E eu descia feliz e saltitante para comprar tudo que tinha vontade.

Até que, depois de muitos meses de fiel relacionamento comercial, o rapaz dos danones, que ostentava uma aparência curiosa de funkeiro com pagodeiro (use sua criatividade), resolveu inovar na abordagem.

Corrente no pescoço.

Boné.

Perfume que provavelmente podia ser sentido em dois bairros diferentes.

Sorriso treinado.

Enquanto separava e embalava os diversos produtos comprados pela criança grande aqui, entre um charme e outro, começou a conversar.

— Você mora por aqui?

— Moro.

— Trabalha em casa?

— Algumas vezes.

Silêncio. Nova tentativa:

— Pelo jeito, as crianças gostam muito de doces.

— “As crianças” sou eu. — Brinquei e logo me arrependi.

— É mesmo? E o maridão, também gosto de danones?

Fingi que não ouvi, entregando o cartão para ele inserir na maquininha. Ele, para garantir o gracejo, insistiu na pergunta.

— E o marido, também gosta?

— Não sou casada.

Pronto! O rosto do vendedor de guloseimas da infância se iluminou completamente.

— Você é solteira?

PERGUNTA DE EFEITO. Ou então era surdo!

Respondi que sim.

Ele sorriu satisfeito.

— Por que está solteira? Uma moça tão bonita e educada.

Aquela conversa, definitivamente, não estava no roteiro da compra dos Activias.

Antes que eu respondesse, ele continuou:

— Tem filhos? Trabalha com o quê?

Detalhes importantes: sempre havia algumas pessoas comprando produtos com ele; neste dia, em especial, não apareceu uma alma vivente. E, misteriosamente, a internet da maquinha de cartão não queria funcionar. Ele tentou encontrar o sinal algumas vezes, mas o sinal se mostrava seu aliado, conspirando a favor dele.

O interrogatório seguiu por mais alguns minutos:

— O que você faz no fim de semana? Como é séria, deve frequentar alguma igreja.

— Sou cristã e não estou atrás de aventuras sem sentido. — Fui enfática para afastá-lo, tentando encerrar a prosa.

Mas a estratégia não deu certo.

— Eu também vou à igreja.

Pegou o celular e sugeriu como se fosse um homem irresistível.

— Me passa seu número. Eu posso te avisar os dias que vou passar na sua rua e as promoções do dia. — Arriscou.

Eu disse que não precisava. E ri:

— Nos dias em que eu não estiver em casa, minha mãe pode comprar.

— Mas aí eu não vou poder te ver. — Arriscou de novo, jogando todo o seu charme funkeiro. — Se deixar seu número, a gente podia sair para comer uma pizza qualquer dia. E posso ir à sua igreja.

Mas alguma coisa, cavalheiro?

— Vou deixar meu telefone com você. — O sinal da máquina finalmente pegou e novos vizinhos se aproximaram do carro, atrapalhando os galanteios românticos do rapaz.

Agradeci, peguei minha sacola de compras com o contato anotado num papel, afinal, educação nunca matou ninguém. E fui para casa.

Ainda o ouvi dizendo:

— Se quiser saber das promoções, é só me chamar. — Sorriu e piscou.

Promoção.

Claro.

Devo confessar que fui ingrata com o destino: nunca utilizei o serviço de atendimento personalizado oferecido por ele.

Minha irmã zombou algumas vezes:

— Depois diz que não tem sorte: se desse uma chance ao vendedor-galanteador, teria promoções e promoções de iogurte e danomes. Laticínios a rodo.

Uma pena realmente.

Lá vem outro carro de bairro… Desta vez, de bananas

Dias depois, resolvi comprar frutas.

Outro carro. Outro vendedor-galanteador. Outro capítulo.

O carro de som estava fazendo aquele barulho, banana prata com um preço para lá de camarada. Eu olhei para a carroceria e fique deslumbrada com tantas bananas amarelinhas e apetitosas. Mas o rapaz estava almoçando um marmitex dentro da cabine quando me aproximei.

— Desculpe! — Eu já me adiantei.

Eram mais de duas horas da tarde e ele parecia cansado e faminto.

— Posso voltar depois. — Eu disse.

— Não precisa, moça. Eu te atendo. Quantas dúzias vai querer?

— Apenas uma.

Ele interrompeu a refeição, deixando-a de lado e saiu para me atender.

Separou as frutas. Embalou. Olhou para mim e sorriu:

— Vai querer mais alguma coisa?

— Não, só isso mesmo. E novamente desculpe por ter atrapalhado seu almoço. Sei bem como é, também ainda não almocei.

— É sério que não almoçou?

Por que eu fui abrir minha boca grande?

— Me enrolei com as demandas do trabalho.

— Você não quer almoçar comigo? Eu peço um marmitex para você. Prefere carne ou frango?

Apesar da gentileza, ia ser bem romântica essa empreitada.

— Não precisa. Obrigada. Eu vou comer em casa.

Foi aí que ele olhou para mim de um jeito mais profundo e caçador (pelo menos que eu tenha notado) e arrematou:

— Seria um prazer para mim, pagar um almoço para você. Basta aceitar.

BOA FRASE DE EFEITO.

Gente, o esmalte tem efeito prolongado. Só pode!

Confesso que fui pega completamente desprevenida.

Eu só queria meu potássio de sempre na promoção. Mas saí de lá quase patrocinada por um prato feito.

Uma coisa é fato: o setor de hortifruti e de laticínios de rua proporcionam experiências que nenhum aplicativo de relacionamento consegue oferecer.

Amor em velocidade de ônibus

Agora vamos ao transporte coletivo. Novamente ele.

Se eu andasse mais de avião, talvez as paqueras viessem de comissários, comandantes, empresários viajando a trabalho… Vai saber.

O ônibus estava cheio (para variar). Eu seguia em pé. Um rapaz estava sentado na cadeira ao lado da porta. Se até aquele momento ele havia olhado para mim, confesso não ter notado.

Depois de parar e uma leva de passageiros descer, veio uma arrancada brusca. Um daqueles momentos em que todos tentam manter um mínimo de equilíbrio enquanto o motorista acredita estar pilotando um carro de Fórmula 1.

Sem querer, a mão do rapaz caiu sobre a minha quando ele se levantada antes de pedir a parada no próximo ponto.

Ele imediatamente retirou a mão, olhou na minha direção e se desculpou.

— Desculpe, moça. Achei que era a grade do ônibus!

— Tranquilo. — Eu sorri de volta, minimamente.

Achei que o assunto estaria encerrado. Mas ele discordou.

Sorriu, fez uma meia varredura me olhando e completou:

— Não que a grade do ônibus seja tão macia quanto a sua mão.

BOA FRASE DE EFEITO.

Confesso que me arrancou uma risada. Achei espontâneo e inteligente.

Seja como for, ele conseguir transformar uma freada brusca do motorista em um certo networking afetivo. Desejou-me boa viagem e desceu no ponto seguinte.

Bombados de academia são uma história à parte

Assim como o bombado que já me pediu em casamento algumas vezes, na mesma academia também já presenciei outros fenômenos inexplicáveis.

Um deles é o cidadão musculoso que sempre ficava me olhando, sorria mostrando os dentes como se fôssemos grandes amigos e, tempos depois, começou a me seguir no Instagram.

Vieram os directs simpáticos.

Bom dia.

Boa tarde.

Boa noite.

Todos os dias.

Mais disciplinado que qualquer aplicativo de hábitos.

Nos dias seguintes.

Bom dia. Você estava muito linda ontem.

Boa noite. Te vi ontem na academia e pensei em falar com você. Estava muito linda.

Linda na academia?

Eu apenas agradecia. Tenho um sério defeito em ser educada demais.

Tempos depois, surgiu o convite, ainda via mensagem.

Queria te conhecer melhor. Aceita tomar um sorvete comigo?

Pergunta direta, resposta clara.

Recusei com educação.

Agradeço o convite, mas não acho uma boa ideia. Obrigada.

Ele ainda tentou argumentar, dizendo que tínhamos coisas em comum (o que, só Jesus sabe), mas mantive minha resposta.

Vida que segue.

Ou assim eu imaginei.

Meses depois, encontro o mesmo cidadão bombado na academia. Ele se aproximou. Sorriso no rosto. Me ajudou a colocar um peso no aparelho e ficou por ali, me observando. Depois, começou uma conversa sem muita profundidade.

Por fim, perguntou:

— Você tem Instagram? Como faço para te adicionar?

Pensei durante alguns segundos, e achei que valia dar uma cutucada de leve:

— Você já me segue lá.

Ele me olhou surpreso.

Havia sido desmascarado.

— Sim, já falou comigo algumas vezes, inclusive.

Cri, cri. Cri, cri.

Levemente desconcertado, antes que eu elaborasse qualquer teoria científica que comprovasse sua amnésia seletiva ou paqueras indiscriminadas, ele tentou recalcular a rota.

— É que eu mudei de conta. Agora que estou lembrando…

Lembrando do quê, cara pálida?

— Tá bom! — Ele continuou para sair menos constrangido da cena — É que eu te acho muito bonita. Vou te adicionar lá.

Não vejo a hora!

O vizinho curioso e o engenheiro stalker

Quando comecei a reforma do apartamento, descobri outra coisa interessante. Nem sempre a paquera acontece diretamente. Às vezes, ela terceiriza o serviço.

Entre cimentos, tijolos, piso e ferramentas, vira e mexe eu cruzada com meus futuros vizinhos, tanto no elevador, quanto no estacionamento e no andar onde moraria. Todos reformando, os assuntos eram comuns.

Dias depois, conversando com o projetista responsável pela obra, ouvi casualmente:

— Ah… um vizinho veio aqui ver sua reforma e perguntou de você.

— Perguntou o quê?

Segundo o relato, ele queria saber quem era a nova moradora. Se morava sozinha. O que fazia. Se era solteira, bonita, se tinha filhos.

Essas pequenas curiosidades totalmente despretensiosas.

— Ele perguntou seu nome e na mesma hora, acessou o grupo do condomínio para procurar seu contato. — Ele seguiu relatano.

— Não brinca!

— E ficou chateado porque a sua foto não aparecia para ele. Perguntou quando você estaria no apartamento, para ele passar em horário oportuno.

Jesus Amado, me livra disso!

Seja lá quem for, é possível que eu já tenha cruzado com o tal vizinho no corredor, no elevador, estacionamento ou portaria. Vai saber. São muitas pessoas, rostos, movimentos e grupos.

Contudo, o vizinho não se tornou problema.

O que me impressiona mais é o engenheiro stalker da obra construída ao lado do meu prédio. Por sorte (ou azar) a construção ficou exatamente na mesma altura do meu andar. Ou seja, ele tem uma vista privilegiada do meu apartamento. E como minha sacada é de vidro e ainda não há cortinas, ele consegue acompanhar todos os meus passos. E não estou exagerando.

Noutras palavras, nos dias em que trabalho em casa, nunca estou sozinha. O gestor de capacete branco e camiseta azul, que ora parece estar delegando tarefas para os operários e noutras apenas desfilando na laje, está sempre no meu encalço.

Basta eu virar o rosto: lá está ele, olhando de forma compenetrada na minha direção. Só falta usar um binóculo. Eu sei que sou cheia de encantos (rs), mas um fã de carteirinha é a primeira vez que ganho nessa dimensão.

Andar de toalha dentro da minha própria casa não é uma opção. Para trocar de roupa, preciso fechar a janela. Ele me vê trabalhar, estudar, fazer reuniões, almoçar. E se tiver uma vista boa (diferente da minha que é limitada a curtas distâncias), ele tem acesso até ao que eu escrevo no computador.

Acreditem: esta cronista nunca está sozinha quando ele cisma em “trabalhar” na obra sem fim!

Bela, recatada e do bom humor

Bom, além dos elogios emprestados pelo entregador para consolar meu luto futebolístico, abrindo esta nova leva de aventuras não românticas, e outros episódios que você leu aqui, desconfio que posso estar sendo leviana ou seletiva demais, ao não dar ouvidos às investidas insistentes do ocaso.

Afinal, não sei por quanto tempo o esmalte ainda permanecerá encantado, ou se o barril de açúcar derramado sobre esta autora de humor melancólico continuará vigorando.

Não aceitei o pedido de casamento do bombado musculoso incapaz de formular mais do que duas frases (e que me chama de BONITONA), nem o convite do cidadão de formas avantajadas e cabeleira exagerada (aquele do terrível feitiço lançado sobre mim), e ainda me sinto incomoda de ter um engenheiro fã vigiando todos os meus passos…

Só sei que existe um padrão curioso entre todos estes. Os snipers e stalkers de plantão começam muito bem.

São simpáticos.

Educados.

Criativos.

Às vezes corajosos.

Até ousados com certa elegância.

O problema é que quase todos aceleram rápido demais. E confundem as vítimas, afinal, atiram no ritmo de uma metralhadora, com o alvo a esmo. Arrisco-me a dizer que pular etapas definitivamente virou esporte olímpico.

Enquanto isso, sigo colecionando histórias em vez de pretendentes em potencial. Convenhamos… Rendem crônicas melhores. E mantém o jogo no zero a zero.

Do jeito que anda a fatídica vida real, até o amor precisa esperar o semáforo abrir.

Será que Rose Morgan teve mais sorte?

Tags:, , , , Last modified: 7 de julho de 2026

Ellen Costa é o pseudônimo de Jucelene Oliveira, jornalista, escritora e ghostwriter. Apaixonada por ouvir e contar histórias. Autora dos livros "Baque: você tem coragem de descobrir a verdade?", "Crônicas da vida real" e "Pássaro de asas quebradas", todos disponível em e-book na Amazon. Idealizadora do Arte de Escrever. Instagram @ellencostaescritora