Um crime, mas uma terna memória também

Juh OliveiraWritten by: Coluna Destaque

Texto de autoria do leitor Paulo Santana

Assim como 90% dos brasileiros, o ano de 1994 me lembra o Tetra, Ayrton Senna e vários outros momentos marcantes desse tipo. Esse ano guarda, também, minha memória favorita.

Lembro com clareza que por volta do dia 10 de dezembro de 1994 eu tinha exatos 10 anos, 6 meses e 21 dias de vida. Neste dia, minha mãe e eu fomos às Lojas Americanas localizada, até hoje na Rua 12 de Outubro na Lapa, em SP. Essa parte roda como um filme na minha cabeça de tão intensa e marcante que foi.

Entramos na loja, subimos as escadas e no final dela viramos à direita, onde ficava o setor de eletrônicos. Em meio a rádios, TV’s e tantos outros aparelhos que eu não fazia ideia para que serviam, testemunhei minha mãe negociar com o vendedor o que seria o meu presente de Natal. Algo que era o meu sonho de uma noite de verão naquela época, um Super Nintendo com o cartucho do Super Mario World incluso.

Naquela época as vacas não eram das mais gordas e um vídeo game não era a coisa mais barata do planeta. Em valores corrigidos custaria algo por volta de R$ 3.000 hoje. Mas ainda assim minha mãe, com as economias dos dois plantões que fazia quase que diariamente como enfermeira no Hospital Regional em Osasco e outro que não cheguei a conhecer, ela parcelou, em sabe-se lá quantas vezes no carnê, a semente dessa memória que compartilho com vocês quase 30 anos depois.

O trabalho rotineiro de uma enfermeira. Imagem: Pixels

Saímos da loja e subimos a rua, quando eu estava prestes a explodir em uma supernova de tanta felicidade enquanto carregava aquela caixa que era quase do meu tamanho. Entramos no McDonald’s para comer um lanche, outra coisa que também não era muito comum, já que ela sempre me pagava uma daquelas “casquinhas” que eram baratas, mas comer naquele lugar não me lembro de nenhuma vez antes.

Enquanto comíamos ela me deu um veredito que viria a guilhotinar brutalmente os planos que eu tinha para quando chegasse em casa. Disse que era o meu presente de Natal, e que era para eu abrir somente na noite do Natal e nesse momento eu vi pela janela um meteoro se aproximando da Terra para extinguir a raça humana.

Delicioso hamburger. Imagem: Pexels

Como assim só poderia abrir no Natal? Faltavam 14 dias ainda. Isso é mais tempo do que o que se passou desde a extinção dos dinossauros. Era muita crueldade. Mas ainda assim, era melhor que não ganhar nunca, então aceitei o acordo (como se tivesse outra escolha).

Quando chegamos em casa ela mandou eu guardá-lo; eu o coloquei dentro daquele guarda-roupas mogno que ficava ao lado da minha cama e nos próximos 3 ou 4 dias consegui resistir ao perfume inebriante que exalava lá de dentro.

Até que um dia fui corrompido por forças maiores. Eu estava prestes a desobedecer minha mãe; não era possível resistir, havia um Super Nintendo me chamando. A princesa Peach precisava de mim, o super Mario precisava de mim.

Desculpe mãe, mas o mundo corre perigo. Preciso agir!

E foi aí que eu abri aquela caixa, por volta da 1h da manhã, com um brilho nos olhos e o coração socando meu peito de dentro para fora. Eu tive meu primeiro contato com um sistema de alta complexidade: instalar o vídeo game na TV.

Feito isso joguei a noite toda até ouvir o primeiro ruído dela acordando no quarto ao lado para ir trabalhar. Nesse momento eu fui mais rápido do que quando a ouvia mexendo no portão e ainda não tinha lavado a louça. Guardei tudo, me enrolei no lençol e fiquei lá com um misto de êxtase e pânico, mas tudo bem, eu tinha ajudado o Super Mario. Eu era o escolhido, o único que poderia fazer aquilo. Era justo.

Essa aventura noturna continuou noite após noite até o Natal chegar e meu Super Nintendo estar embalado para presente num canto embaixo da árvore de Natal para a meia-noite eu abrir, fazer uma cara de surpresa e correr para jogar pela primeira vez o vídeo game que acabara de ganhar!

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Até algum tempo atrás minha mãe não sabia dessa história e foi quando resolvi confessar o meu crime (antes tarde do que nunca). Ela disse que não foi bonito o que eu fiz, mas tudo bem, eu era criança, acontece.

Fiquei com medo de ela me deixar de castigo sem vídeo game por uma semana, como fez tantas vezes…

Obs: deixo aqui meu agradecimento à minha mãe por me proporcionar essa memória que tanto gosto!

Valeu Veia!

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Tags:, , , , , , , , Last modified: setembro 18, 2020
Juh Oliveira

Juh Oliveira (Ellen Costa) é jornalista e escritora. Apaixonada por ouvir e contar histórias. Autora de "Baque: você tem coragem de descobrir a verdade?", thriller psicológico disponível em e-book na Amazon. Idealizadora do Arte de Escrever. Instagram @ellencostaescritora