07/03/2013 16:00 - Atualizado em 11/11/2017 18:20

Reportagens

Eliane Brum e sua busca pelo (extra)ordinário

A jornalista fala sobre sua preferência por personagens anônimos em reportagens e como vê a relação entre jornalismo e internet

Marina  Venuto
Marina Venuto
Arte de Escrever
A jornalista é conhecida por relatar histórias com profundidade

Há mais de 20 anos, a jornalista Eliane Brum já acumula cerca de 40 prêmios nacionais e internacionais por fazer da reportagem uma arte. Iniciou sua carreira no Jornal Zero Hora de Porto Alegre (RS) e mais tarde passou a integrar a revista Época, mantida pela Editora Globo, em São Paulo.

Lançou em 2011 seu primeiro livro de ficção, intitulado "Uma duas", quarta obra de sua carreira e diz estar feliz em encarar mais um desafio. Ao contrário das outras três publicações -"Coluna Prestes - o avesso da lenda", "A vida que ninguém vê" e "O Olho da Rua" - em que Eliane Brum retrata o que a realidade tem a oferecer, dessa vez, as palavras são dedicadas à ficção.

Eliane Brum não busca os grandes, prefere os anônimos. "Eu acho que são as histórias mais interessantes, além disso, a escolha quebra a lógica da pauta", justifica. Sua observação minuciosa e a linguagem literária adotada para revelar os fatos fazem da jornalista um nome forte entre os praticantes de um jornalismo diferenciado no país. Ao perceber a profundidade com que ela trata suas histórias, foi difícil resistir a oportunidade de encontrá-la.

"Ao contar minhas histórias, tento descobrir o que move a vida das pessoas", comenta.

Naquele dia, desejava saber o que movia sua paixão pela arte da escrita e, principalmente, da reportagem. Ela contou que na infância ouviu histórias demais, a partir de então foi estimulada a contar seu ponto de vista sobre os acontecimentos. "Fui conhecer o New Journalism muito tempo depois de ter concluído a faculdade de jornalismo", revela. 

A intuição nasceu do contato com a literatura. Daí para o relato jornalístico-literário foi um pulo. É difícil se adaptar ao padrão objetivo, no sentido da linguagem, quando a paixão pelo subjetivo fala mais alto. "Mas isso não dá licença para ficcionalizar o relato jornalístico", lembra a repórter. Na faculdade, e já no último semestre, Eliane Brum descobriu que tinha certa aptidão para humanizar o texto quando resolveu escrever uma matéria a respeito de todas as filas que um ser humano enfrenta desde o nascimento até o fim da vida. 

Mais tarde, a jornalista seria adimitida no jornal Zero Hora, onde sempre procurou recortes diferenciados ao retratar a notícia. Ela fala da liberdade para produzir as grandes reportagens no Zero Hora. "Nunca tive dificuldades quanto a isso, acho que foi sorte. Meu editor-chefe pediu que eu produzisse alguns textos sobre o cotidiano e me deixou à vontade para dar ao assunto o foco que eu desejasse". Na revista Época, o mesmo livre-arbítrio seria concedido à Eliane, que admite jamais ter sido obrigada a cobrir qualquer pauta que não a interessasse.

Sobre a internet, quer provar que é possível grandes textos no ambiente que parece exigir leitura rápida. "É possível a grande-reportagem na internet. Quem foi que disse que na internet só podem ter textos curtos? Tenho um texto publicado na Época online chamado "Minhas raízes são aéreas", essa entrevista tem 63.000 caracteres, o que equivale a quase 30 páginas de revista, e é a minha coluna mais lida nos últimos dois anos". Ela acredita que a internet tem uma lógica muito favorável à publicação de grandes reportagens, pois não se limita ao espaço nem ao número de folhas que deve ocupar. 

Em 2010, Eliane Brum conta que houve grandes mudanças na sua forma de ver a vida. A reviravolta aconteceu por causa de uma de suas reportagens em que acompanhou Ailce de Oliveira Souza, uma merendeira que descobriu o câncer quando finalmente iria descansar à sombra da aposentadoria. "Descobri naquele momento que a única riqueza que temos de verdade é o tempo, e eu queria me reapropriar totalmente do meu". 

Depois do encontro com Ailce, a jornalista admite ter outros olhos. Principalmente em relação à vida. Sua missão é transmitir experiências e histórias por meio de pessoas supostamente comuns, aquelas que, aos olhos da grande mídia, não merecem virar "notícia". Em suas mãos, o aspecto "comum" ganha brilho e cor. Em seus textos, percebe-se a importância dada a operários, faxineiras e merendeiras. Segundo a jornalista, são eles os que realmente constroem esse país.

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