25/11/2017 22:23 - Atualizado em 27/11/2017 13:34

Crônica

O cachorro custou 6 mil, a desilusão não teve preço

“Pensar nele é morrer de desventura. Não pensar é matar meu pensamento”

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever

Ser jovem e estar apaixonado são quase sinônimos de confusão e arrependimentos futuros. Não que o amor não seja uma coisa boa de se viver. Ele é. E principalmente na juventude, o gostinho da paixão eterna que ele traz é regado a motivações hiperbólicas e emoções profundas. O que fica depois que o vendaval passa? Isso depende da experiência e sobretudo do aprendizado que cada um escolhe levar.

TT era jovem e apaixonado por Ana, a bruxa que lhe trouxe enorme prejuízo e descontentamento. Mas isso, é claro, foi apenas depois que a venda foi tirada de seus olhos e seus pais lhe xingaram horrores pela falta de juízo e total ausência de ambições para o futuro que ele desperdiçou numa tacada só.

Ele trabalhava no banco e tinha um cargo relativamente prestigiado para alguém tão jovem. Os pais morriam de orgulho. Além de ter um bom salário, usar terno e parecer um homem sério, ainda tinha possibilidades de crescer profissionalmente e alcançar um cargo que seria “invejado” na família. Talvez suas tias iriam querê-lo como genro. 

Nas horas vagas, seu tempo e atenção eram dados à sua amada Ana, que com certeza lhe fazia ver a vida de forma mais colorida e altruísta (o amor faz isso conosco). Naquele tempo, no auge de seus 20 anos e total inexperiência sentimental, tudo era tão intenso e verdadeiro. A vida era sensacional e ele ainda não sabia que o poeta Vinícius de Moraes tinha razão em seu Soneto de Fidelidade de que “o amor só é eterno enquanto dura”.

E a PLR estava se aproximando e TT tinha aspirações românticas para ela. Para quem não sabe, a PLR é aquele prêmio que empresas dão aos seus funcionários uma vez por ano, normalmente empresas grandes, como bancos, metalúrgicas e varejo. Esses prêmios costumam ser bem “gordinhos” e enchem os olhos dos funcionários. Alguns esperam o ano inteiro por ele com planos e sonhos para realizar. E acreditem ou não, mas alguns dão até para comprar carro zero.

Mas TT era jovem e apaixonado, lembram disso? Seus pais e amigos talvez estivessem pensando que ele ia guardar a bolada para uma viagem de férias, talvez Natal, Recife, Porto de Galinhas em alta temporada (por que não ostentar um pouco?), ou até mesmo outro país, afinal, não seria nada mal fazer fotos em Nova York, Londres, Paris... Ou mesmo guardá-lo na poupança para o futuro; em último caso, já que trabalhava no banco e conhecia bem os trâmites internos e maneiras de tirar vantagens com investimentos, poderia ser inteligente o bastante para fazer uma aplicação que lhe rendesse o dobro ou quem sabe o triplo do valor. Por que não?

Cachorro poliglota de 1 milhão de dólares. (Imagem: Google)

Mas não! Contrariando todas as expectativas que o mercado de apostas fazia sobre o promissor homem de negócios, ele investiu os 6 mil reais que recebeu de prêmio (repito: 6 mil reais) em um belo e sinuoso cachorro suíço para presentear sua amada Ana, a mulher que lhe roubava suspiros até em pensamentos. E como ela ficou feliz e radiante com o presente.

Hê-mos de convir: não era um Vira-lata, Chihuahau, Poodle ou Pit Bull. Era um Boiadeiro de Berna, também chamado de Bernese, um autêntico cachorro suíço que mataria qualquer amiga de inveja, não só pelo cachorro, mas principalmente pelo namorado. O animal era incrível (o cachorro). Tinha o pêlo longo, liso e brilhante. A maior parte dele era preta, com marcas cor de fogo (castanho-avermelhado escuro) nas faces, e nos quatro membros e no peito trazia marcas brancas. Lindo, não?

Além disso, provavelmente latia em alemão (na Suíça, o alemão é falado por 64% da população), inglês, francês, italiano, húngaro, espanhol, português de Portugal e agora ainda ia aprender o português do Brasil. Genial esse cachorro. Tão poliglota. Valeu cada centavo. Como se não bastasse, era um animal bem equilibrado, atento, vigilante e sem medo das circunstâncias do dia-a-dia. Bondoso, fiel, seguro de si e pacífico com estranhos. Também possuía um temperamento dócil. Que fique claro que essa descrição é do cachorro.

Esta é a Ana, a bruxa malvada. (Imagem: Google)

E TT ainda ganhou o dia, a semana, o mês e ano ao ver o sorriso lindo da amada, que veio acompanhado de mais e mais juras de amor eterno. Sim, TT era o melhor namorado do mundo. Não havia dúvidas disso. E além de ser romântico e generoso, era também alguém que queria ver a futura mãe de seus filhos progredir na vida. Ele já havia lhe presenteado com uma câmera fotográfica profissional de quase 3 mil reais, para ela iniciar numa nova profissão. E olha que Ana nem fotografar sabia. As fotos que tirava no início matariam qualquer professor de Fotografia da Etec de Carapicuíba de vergonha e desgosto.

Enquanto alguns namorados presenteavam suas musas inspiradoras com caixas de chocolate de R$ 9,35, Panetones da Kopenhagem de R$ 60,00 ou roupas de marcas do shopping de no máximo R$ 99 numa promoção da Hering, TT arrasava nas escolhas. Depois da câmera profissional e do cachorro de um milhão de dólares, o amor entre os dois só aumentou e aumentou (o contrário seria um desperdício). Como não amar alguém tão altruísta e sensível, atento a cada detalhe e aos sonhos da cara metade? 

Mas como a vida às vezes é também um filme de terror com monstros e zumbis, alienígenas e vampiros, o desfecho desse romance tão perfeito foi pior que “500 dias com ela”. Talvez devêssemos mudar o nome da Ana para Summer.

A bela Ana, que no início era uma princesa da Disney rapidamente assumiu a forma de bruxa má e perversa, pior que a da Branca de Neve. Roubou o crédito das fotos de TT, dilacerou seu coração em mil pedaços, levou o cachorro suíço poliglota embora, bloqueou o rapaz apaixonado nas redes sociais, não atendeu mais seus telefonemas, esqueceu de todos os momentos felizes, verdadeiros e sentimentais que viveram juntos. Oh, mulher desalmada! Como pode fazer isso?

Isis é muito mais bonita que essa princesa da Disney. (Imagem: Google)

O tempo passou e a vida seguiu seu curso... TT já não acreditava mais no amor, fidelidade, lealdade ou justiça. Tudo isso para ele era só balela de comerciais de TV para vender mais no “Dia dos Namorados”. Mas TT era um cara gentil e decente e seria revoltante ter um desfecho que não fosse feliz. Sua história ainda teria muitos capítulos novos a serem escritos e o universo lhe proporcionou um Plot Twist surpreendente.

TT já não trabalhava mais no banco. Havia cansado daquela rotina exaustiva e estressante. Tinha aspirações maiores na vida (agora enxergava com os dois olhos abertos). Fez um curso de fotografia, parou de rasgar dinheiro com bobagens, passou a ouvir mais os pais e finalmente conheceu uma mulher incrível. Uma mulher de verdade, daquelas que mata um leão por dia com elegância e bom humor.

E dessa relação sincera de amor ele ganhou uma princesa de verdade, a pequena Isis. As bonecas da Disney ficaram no chinelo. Ambas resgataram nosso protagonista cafona de uma vida cinza e limitada e o transportaram para uma vida real, cheia de alegrias e novas motivações. Agora ele não vivia mais para comprar presentes ou impressionar garotas ambiciosas; vivia para desfrutar e dividir momentos felizes, dificuldades e desafios que a vida traz, mas sempre ao lado de uma mulher que sabia reconhecer seu valor como homem, marido, amigo e companheiro. Alguém que estava ao seu lado para construir amor, amizade, companheirismo e generosidade. Não que não houvessem problemas ou enroscos de vez em quando. Eles existiam. Mas para ambos, valia a pena continuar e continuar...

Que fim levou a Ana bruxa destruidora de corações e bolsos imaturos? Só Deus sabe. O que sabemos dela é que foi incapaz de se desculpar pela traição mesquinha ao nosso protagonista. E sabemos ainda que esse “amor” foi sim, um patético tormento. 

Mas uma coisa podemos pensar juntos: se nosso “Dom Casmurro” tivesse permanecido no banco, ganhando um salário incrível, usando ternos caros e bem cortados, namorando Ana e pensando apenas nas mesmas coisas, talvez não tivesse sabido enxergar as oportunidades que a vida lhe trouxe (e que foram realmente boas); talvez Isis não estivesse aqui ou pertencesse a outro homem. Talvez vivesse uma vida acostumada e medíocre ao lado de uma mulher que só sabia “roubar” dele, nunca devolver.

E quanto a nós, alunos da Etec de Carapicuíba, provavelmente não teríamos um dos melhores e mais fofo professor que essa escola do Centro Paula Souza poderia nos oferecer. Pensando de forma prática, seria um enorme prejuízo também para nós.

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