12/09/2013 11:56 - Atualizado em 12/09/2013 13:43

Especial

Jornalismo em obra literria

Narrativa que faz fusão entre jornalismo e literatura oferece ao leitor um texto capaz de dar dimensão do fato, dos personagens e de seu contexto muito além do que a notícia formal e objetiva do dia a dia pode fazer

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Arte de Escrever
O livro de Marcelo Simões pertence ao gênero Jornalismo Literário - uma narrativa que faz uma fusão entre jornalismo e literatura

Um crime que ocorreu em Salvador (BA) em 1970 e ficou conhecido como Chacina da Graça inspirou o jornalista e publicitário baiano Marcelo Simões para produzir o romance “Muito além da loucura”, que reconstitui o crime com base em entrevistas e informações do processo de julgamento do assassino.

Seguindo o roteiro real, o texto de Simões mostra como um dos filhos de uma família rica de um comerciante português de tecidos entra em casa de madrugada portando um rifle Winchester .44 e um revólver 38, atira primeiro no pai e depois na mãe, que estavam dormindo, em seguida mata a avó, enquanto ela alcançava o corredor saindo de seu quarto para verificar o que estava acontecendo, e por fim usa o revólver para matar o irmão mais novo, que sofria de esquizofrenia e naquele momento também dormia.

Marcílio Moura Maia, que é o nome ficcional de Marcelino Souto Maia Neto, cometeu o crime depois de planejá-lo ao longo de seis meses para ficar com a herança dos pais. Foi por isso que ele usou o revólver para matar o irmão doente mental, tentando forjar suicídio. Assim, a história passaria longe dele e os jornais diriam que o rapaz esquizofrênico matou os familiares e depois se matou.

Esse ato frio e cruel foi um dos precursores das chacinas familiares no Brasil. Depois dele, casos semelhantes também tiveram impacto na opinião pública, como os de Gil Rugai e Suzane Von Richtoffen. No mês passado, o episódio da família Pesseghini, na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, retomou esse tipo de tragédia, que parece mesmo aprofundar os domínios da loucura humana.

Muito além da loucura. Marcelo Simões, Geração Editorial, SP, 2013, 278 págs.

O livro de Marcelo Simões pertence ao gênero Jornalismo Literário – uma narrativa que faz uma fusão entre jornalismo e literatura, oferecendo ao leitor um texto que tem a forma do romance e é capaz de dar uma dimensão do fato, dos personagens e de seu contexto muito além do que a notícia formal e objetiva do dia a dia pode fazer.

Segundo a escritora e jornalista Marina Moura, que está preparando em parceria com a jornalista Marina Venuto o lançamento de um livro sobre autores brasileiros do gênero, o Jornalismo Literário se coloca para o leitor não por lançar mão de ficção, mas porque amplia a perspectiva do leitor, apresentando as nuances e contradições da realidade: “É o contar mais sobre o fato, não o contar além do fato”, afirma.

Marina também diz que “uma das coisas que desclassificam o Jornalismo Literário é pensar que sua prática aceite a ficção, a invenção e o floreio dos fatos. Não se trata disso, o jornalismo literário não trabalha com a ficção. O gênero tenta, em sua essência, ter uma relação fiel com a verdade”.

O texto foi retirado do blog Livros & Ideias. Criado em abril de 2010, o blog oferece um espaço de apoio à leitura para quem procura a literatura como exercício crítico e aprecia bons livros. Editado pelo jornalista Helder Lima, especialista em semiótica psicanalítica pela PUC-SP e estudante de psicanálise, que tem seus textos publicados semanalmente, às segunda-feiras, nos jornais Metrô News e Folha Metropolitana.

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