08/07/2013 19:23 - Atualizado em 11/01/2018 14:30

Resenha

Siba e banda: Pernamburock em Belo Horizonte

Plateia mostra-se curiosa e aberta ao som de Siba, mas permanece no ar certo receio de dançar o ritmo que mistura tradição pernambucana e rock

Colaborador
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Arte de Escrever

O show demorou para engatar. Após os três sinais de costume entrou no palco do Teatro Bradesco Siba e sua banda, carregando o ambiente com agradável sotaque pernambucano. Rock pernambucano. Temos juntado boas referências desse tipo de produção que mistura rock, folclore e regionalismo. Dos Zés Ramalho e Geraldo a Otto, o patrimônio tem crescido. Os ouvidos do público belo-horizontino no entanto, apesar de se apresentarem receptivos à mistura, só deram comandos de dança ao corpo no fim do show, quando o vocalista Siba incitou o público a levantar das confortáveis poltronas estofadas vermelhas pela segunda vez: “gente, o ingresso também dá direito a dançar!”. 

O álbum apresentado, Avante, quer ser mesmo assim, quer ser dançante. Segundo o vocalista em seu site, a intenção de Avante é “ter pistas confusas”, o que significa misturar a musicalidade capixaba do Congo com o rock de Hendrix, com repentes de 
Antônio Alves e Severino Feitosa. Soma-se à receita também o que Siba chama de “versos suspensos”, declamações que precedem ou permeiam as músicas.. 

Embora esteja entrando em turnê nacional apenas neste ano, Avante foi gravado em São Paulo em 2011. Passou pelas mãos promissoras do guitarrista e produtor musical Fernando Catatau, que já fortaleceu pequenos, excêntricos e excelentes projetos como 3 na Massa e compôs banda de mais renomados, como Los Hermanos e Vanessa da Mata. Em Avante, Catatau faz participação especial da faixa Qasida. Siba faz voz, guitarra e viola; Leo Gervázio fica com um a tuba, instrumento que mais caracteriza o ritmo diferencial da banda; Samuel Fraga toca bateria e Antônio Loureiro fica no vibrafone e teclados.

Para Siba seguir avante com seu rock pernambucano 

O que torna a música de Siba atrativa é o mesmo fator que dificulta “sua pega”. Diferente das canções que grudam em nosso inconsciente e parecem se repetir de modo automático – quando você se vê cantando aquele hit na cozinha ou no banheiro, sabe? –, as canções de Siba têm outro tempo de absorção; têm ritmo acelerado e são ou narrativas ou poéticas. Não têm refrão e fogem da rima fácil dos repentes nordestinos. Se atém em pegar da cultura lá de cima apenas a forma narrativa, a contação de histórias. 

As músicas Brisa, Cantando ciranda na beira do mar e Canoa furada foram as que visivelmente motivaram mais a recatada plateia que, desejosa de maiores embalos em vários momentos, esforçou-se para se empolgar na apresentação daquela noite. Quem sabe num palco aberto, numa rua, parque ou praia, empolgação de banda e público não seria mais estrondosa, como manda o caloroso pernambucolismo? 

Para a apresentação perder o ar formal, dado pelo ambiente de  um teatro organizado e novinho em folha, faltou o drama, o ato exagerado em cena, a bagunça boa e disposição interativa de público e banda que chegou apenas na hora da despedida. Mais sentimento e força no rock. Mais sentimento e força no pernambucolismo. Porque mistura para ser boa deve ser superlativa. É assim que se quer o brasileiríssimo rock pernambucano.

Confira abaixo uma música do cantor. 

A Colaboradora do Portal, Marina Moura, é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe no colo enquanto digita seus textos.


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