09/09/2013 22:49 - Atualizado em 11/09/2013 12:02

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Meu querido pai que enorme saudade deixou: amigo e muito bem-humorado

Maria Zita Teixeira Costa é uma mulher que ama e luta pelas causas sociais. Não sabe ser omissa e não estender a mão para ajudar quem precisa. Carrega consigo uma imensa saudade do homem por quem sempre teve orgulho: seu pai Anísio

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever
Mãos unidas como símbolo da nossa união (Foto: Divulgação)

Texto de autoria da leitora!

Saudades é uma palavra corriqueira encontrada em qualquer manuscrito ou dicionário. Ninguém sabe ao certo de onde ela veio ou para onde ela vai, qual a sua origem ou seu real significado. Mas sabemos que a mensagem que ela transmite é bem forte, é de um imenso vazio, quando não pior.

Esse sentimento de vazio, em certos momentos da nossa vida, é sinal de uma justa lembrança. Neste momento, estou sentindo uma imensa saudade de algumas pessoas que passaram por minha vida. As pessoas conseguem esquecer do que você disse, mas não esquecerão do que você fez, de como você as tratou (para o bem ou para o mal).

Meu caro pai, Anísio de Aquino Costa, escrevo-lhe estas palavras para dizer que ainda hoje fico triste às vezes, com tanta saudade que sinto da sua presença aqui. Só de pensar na sua partida, a saudade que sinto de você, ainda se faz muito presente em minhas lembrança e também no meu coração.

Você partiu e deixou um grande vazio dentro de mim, apesar de já ter passado mais de treze anos... Sua presença e seu nome ainda são muito lembrados entre os familiares, parentes e os amigos mais chegados. São conversas sadias do meu ponto de vista que o senhor é sempre mencionado. Claro que com muito respeito, entendo que possa ser um sinal de que o senhor só deixou de estar perto de corpo presente, mas continua muito perto, muito próximo, muito vivo em nossos corações e mentes. Em cada conversa, em cada piada mencionada, entre uma gargalhada e outra, a sua lembrança corre solta.

Acho que você aprovaria isso. Pai, as pessoas continuam como sempre, com suas vidas sem graça, com suas lutas diárias, sem perspectivas de crescimento ou mudança. A história se repete: a seca castigando o nosso Nordeste, ano após ano; o povo continua sendo tratado como gado; de promessa a promessa nada acontece, só o voto de cabresto. Mas como cobrar alguma coisa daquelas pessoas que estão sendo exploradas? Sem instrução e sem educação cada vez mais se tornam presas fáceis e caem no conto do vigário ou vigaristas que induzem, prometendo mundo e fundos e nada acontece.

Terminam sendo coniventes com tudo que acontece de errado. Muitas vezes, contestam a situação, mas não conseguem reagir. Mas reagir para quê? Aqueles que reagem correm o risco de morrer. Quando um ou dois abrem a boca, a maioria abaixa a cabeça e continua a cair na mesmice.

O certo, pai, é que as coisas continuam do mesmo jeitinho de quando o senhor nos deixou. A única diferença é que as esperanças que nós tínhamos de dias melhores quando fulano vencesse as eleições e ciclano saísse do poder, estão cada dia piores, menores e insossas. Nem eu tenho mais esperança!

Entra fulano e sai ciclano e vivemos na mesmice. Quando há dois honestos, há oitenta ladrões. Como mudar esta situação se nascemos num país sem lei? E a pouca lei que ainda nos resta, além de não ser obedecida, eles burlam e arranjam um jeitinho daqui e dali para fazer uma emenda e aí a situação fica pior que as de antigamente. O certo é que morrem e nascem pessoas todos os dias e nada muda...

Lembra-se daquele velho ditado que o senhor dizia, tentando minimizar as dores causadas pela 'taca' de minha mãe? 'O sol nasce para todos, então só nos resta esperar'.

Pai, já não sou mais nenhuma criança. Seus netos também já cresceram muito, não em tamanho, mas claro, em ideologia e inteligência. Eu fico a me perguntar: 'Como seria se o senhor ainda estivesse aqui conosco?'   

Lembra-se pai, do quanto a gente era amigos? E o quanto me sentia protegida do seu lado? E aquilo que eu prometi, eu cumpri. De criar meus filhos de modo diferente, com autoridade, claro, mas sem espancá-los. Lembro que o senhor deu muita risada quando pela primeira vez que o Jô saiu de casa e foi encontrado horas mais tarde atolado em uma lagoa e eu com sete dias de resguardo da minha segunda filha. Mesmo apavorada com tudo que tentaram me esconder, o que se passava, com medo das consequências que isso poderia causar, uma vez que ele tinha apenas um ano e quinze dias, acabei descobrindo e foi um Deus nos acuda. E quando chegaram com ele, eu tive uma reação estranha, mas um tanto quanto instantânea: peguei um cipó e dei-lhe umas lapadas, cada lapada uma pergunta: você vai fazer isso de novo? E ele respondia: não! Depois tive uma crise de arrependimento e chorei. Chorei porque doeu em mim também.

Lembro ainda que o senhor perguntava a ele: Rapaz, tu apanhou? Ele respondia que sim, o senhor ria e dizia: 'esse tem o coro duro'. A outra vez que ele apanhou, dessa vez junto com a irmã, foi quando ele tinha cinco anos. Eu peguei os dois riscando fósforo embaixo do cobertor. Que perigoso! E o senhor novamente tirou o sarro dele, perguntando se ele tinha esquecido da primeira surra, já que procurou outra..

Pai, hoje quem está muito debilitada é a minha mãe, sua eterna Ana. Ela já não anda mais sozinha, vive doente, fragilizada e muito teimosa para tomar os remédios e se cuidar. Apesar da saúde difícil, a valentia continua a mesma. Não quer dá o braço a torcer de jeito nenhum. Vive fazendo birras, distorcendo os fatos e por ai vai. O certo é que ela se tornou uma criança malcriada e rebelde, o que torna difícil o convívio e também os cuidados com sua saúde e velhice. Muito diferente do senhor, que era sempre alegre e feliz e levava tudo no bom humor.

Enfim, pai, toda despedida é dor.

Para isso fomos feitos: para lembrar e sermos lembrados. Assim será nossa vida e onde você estiver, pai, quero dizer: 'Que saudade de você'!

Abaixo a canção 'Obrigado ao homem do campo' de Dom e Ravel. (a canção que meu pai adorava) 

Obrigado ao Homem do Campo
Dom e Ravel

Obrigado ao homem do campo
Pelo leite o café e o pão
Deus abençoe os braços que fazem
O suado cultivo do chão

Obrigado ao homem do campo
Pela carne, o arroz e feijão
Os legumes, verduras e frutas
E as ervas do nosso sertão

Obrigado ao homem do campo
Pela madeira da construção
Pelo couro e os fios das roupas
Que agasalham a nossa nação
Pelo couro e os fios das roupas
Que agasalham a nossa nação

Obrigado ao homem do campo
O boiadeiro e o lavrador
O patrão que dirige a fazenda
O irmão que dirige o trator

Obrigado ao homem do campo
O estudante e o professor
A quem fecunda o solo cansado
Recuperando o antigo valor

Obrigado ao homem do campo
Do oeste, do norte e do sul
Sertanejo da pele queimada
Do sol que brilha no céu azul
Sertanejo da pele queimada
Do sol que brilha no céu azul

E obrigado ao homem do campo
Que deu a vida pelo Brasil
Seus atletas, heróis e soldados
Que a santa terra já cobriu

Obrigado ao homem do campo
Que ainda guarda com zelo a raiz
Da cultura, da fé, dos costumes
E valores do nosso país

Obrigado ao homem do campo
Pela semeadura do chão
E pela conservação do folclore
Empunhando a viola na mão
E pela conservação do folclore
Empunhando a viola na mão

Lá rá lá, lá rá lá, lá rá lá....

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