29/08/2013 22:18 - Atualizado em 18/07/2016 21:18

Resenha

Realidade revisitada

Os bastidores da revista que marcou os anos 60 e o jornalismo brasileiro no novo livro de Mylton Severiano, um dos sobreviventes da saga

Marina  Venuto
Marina Venuto
Arte de Escrever
Escrito por Mylton Severiano, o livro conduz o leitor aos bastidores da produção da revista numa linguagem solta

Uma das revistas mais polêmicas e ousadas que marcaram o jornalismo no Brasil, sem dúvida, foi Realidade. Jornalistas da própria publicação apontam que os ventos eram favoráveis: as revoluções juvenis dos anos 60 no mundo (sexo, drogas e beatlemaníacos brotando a cada novo sucesso da banda) acompanhadas das mudanças históricas que aconteciam por aqui fizeram de Realidade leitura obrigatória para os mais revolucionários da época.

Assuntos antes jamais discutidos abriram alas nas páginas da publicação da editora Abril, que se esgotava em pouco tempo nas bancas brasileiras e causava grande espanto nos próprios criadores, deixando moralistas em alerta. Afinal, uma revista que retratasse com naturalidade o divórcio e o uso da pílula anticoncepcional naqueles anos conservadores não ganharia os aplausos dos generais. Mas seria a janela da nova geração 'contra-tradição' que nascia.

"Realidade, história da revista que virou lenda" é a mais recente publicação literária (2013, editora Insular) a respeito da revista. Escrito por Mylton Severiano - um dos poucos sobreviventes vivos da saga - conduz o leitor aos bastidores da produção numa linguagem típica de bar: solta. O livro reúne elementos inéditos sobre o início do projeto e revela uma equipe de repórteres coesa e empolgada em botar o pé na rua para traduzi-la em texto jornalístico-literário.

Mergulhados na realidade brasileira dos cantos e becos pisados pela gente do povo, soube mostrar com clareza e capricho o que viviam, pensavam e queriam os brasileiros dos anos 60. Imersões de até uma semana no contexto do assunto da reportagem, texto primoroso e fotografias de encher os olhos eram os ingredientes que davam liga na massa daquela nova realidade. 'Um grupo de jornalistas pensantes e rebeldes' - como registrado por Severiano - deu conta do recado.

É importante destacar a homenagem que Myltainho (como o autor era chamado) presta aos colegas em seu livro. Mortos e vivos. Descreve os perfis que compunham a equipe no mesmo tom de conversa de bar. De Zé Hamilton (um dos únicos repórteres ainda vivos) ressalta sua facilidade em explicar assunto de doutor em linguagem didática, mas não menos envolvente.

Também fica evidente nas páginas do livro a simpatia que o autor nutre pela figura de João Antônio, um dos repórteres já mortos e que deixou sua marca marginal na revista lida pela elite. Realidade botou de cabeça para baixo os padrões da época. Por isso fez história. E não foi só na abordagem dos assuntos, mas no próprio jeito de se fazer jornalismo, como fica claro no livro.

Outra obra menos recente sobre a revista é "Realidade re-vista" (2010, Realejo Livros), escrito pelos jotas José Hamilton Ribeiro e José Marão. Os dois repórteres, ainda vivos, alternam matérias de autoria e relatos dos bastidores sobre a produção da reportagem em questão. Através disso, o leitor pode entender melhor as influências que levavam à abordagem daquele assunto e conhecer com mais detalhes o contexto no qual vivia o país. Além de ter reunidos, na íntegra, alguns dos melhores textos da publicação.

Ao contrário da homogeneidade textual que o chefe de redação exige do jornalista nos textos de revistas mais atuais, Realidade foi uma revista de autores. Talvez aí esteja seu segredo de sucesso. Cada repórter, com sua escrita e liberdade, conseguia transmitir ao leitor um pedaço daquele novo Brasil com personalidade, jornalismo e literatura.

No livro de Myltainho revisitamos a história de Realidade com mais profundidade, apesar da linguagem fugir daquele padrão formal encontrado na maioria dos livros. Nesse caso, Severiano só seguiu à lógica de sua geração e revolucionou. Está perdoado.

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