05/07/2013 17:49 - Atualizado em 18/07/2016 21:23

Crítica

Muito além do piripipi

O documentário Gretchen Filme Estrada mostra o que seria a última turnê de Gretchen, após 30 anos rebolando pelo Brasil, e sua primeira campanha política como candidata à prefeitura da Ilha de Itamaracá (Pernambuco) em 2008

Marina  Venuto
Marina Venuto
Arte de Escrever
Não importam os meios, seja plateia ou eleitorado, é rebolando que Gretchen assegura sua fonte de renda

Antes de torcer o nariz para a figura de Gretchen e seu rebolado, saiba que esse é um daqueles documentários que agregam conhecimento a respeito da política brasileira e suas particularidades enquanto cultura. A jornalista e escritora Eliane Brum faz um trabalho intenso com suas pautas e esse não seria diferente. Quem a conhece, quase consegue absorver seu olhar embutido nas passagens e cenas, sempre dedicado ao anônimo.

Esteticamente cru, o documentário revela a vida nua, encontrada no interior do país e também das celebridades – que quase sempre preferem escondê-la, talvez com medo de serem vistos como meros mortais. No caso de Gretchen, essa é uma realidade escancarada durante as cenas, onde se conhece a dureza e a decadência de uma vida sustentada há 30 anos pelo rebolado da dançarina, atriz e cantora Maria Odete Brito de Miranda.

Talvez poucos saibam, mas era rebolando ao som de 'freak le boom boom', 'conga conga' e 'piripipi' pelos precários circos do Brasil que Gretchen sustentava os 6 filhos. Se a figura pessoal de Gretchen talvez seja, em si mesma, motivo suficiente para não assistir ao documentário, a Ilha de Itamaracá e o povo que se vê diante da candidatura dela à prefeitura mostra que o sentido de filmá-la nessa nova etapa ganha argumento e garante a observação de um Brasil real, recortado pelas lentes da jornalista Eliane Brum e o cineasta Paschoal Samora. 

Com o objetivo de mostrar a última turnê da rainha do rebolado e sua primeira campanha política como candidata à prefeitura da Ilha de Itamaracá (Pernambuco) no ano de 2008, pelo Partido Popular Socialista (PPS), os autores nos conduzem à reflexão sobre o que a rainha do rebolado revela principalmente sobre nós, os brasileiros. A brasileira Gretchen, que paga suas contas no fim do mês com o que o rebolado consegue lhe render e os brasileiros de Itamaracá, expostos a uma candidata política sem meio nem fim e que parece estar mais interessada em turbinar sua condição de vida pessoal. Um retrato político comum pelas tantas 'ilhas' do país. 

Enquanto mensagem, o documentário é transparente quando mostra a própria Gretchen diante de seu eleitorado. Como no caso em que uma moradora pede dinheiro para comprar gás. A recusa de Gretchen justifica-se na honestidade da candidata impedida de comprar votos, mas é contrariada em outra cena, quando o objetivo é amansar os colaboradores da campanha.

Uniformizados com bonés, camisetas e santinhos que estampam seu número, são convencidos pela própria Gretchen a não duvidar de sua camaradagem quando esta for prefeita e puder facilitar a entrada de funcionários na prefeitura, "primeiro eu lembro de quem tá comigo, depois eu penso no resto", enfatiza. Não é de hoje que o jogo de interesses move a política do Brasil, em todas as suas camadas e engrenagens.

A equipe militante é feita de gente humilde. São os mesmos que pagam R$ 3,00 para adentrar as lonas dos circos e assistir a performance de um rebolado histórico. A voz off, que de vez em quando surge entre as cenas, dá conta de explicar que Gretchen rebolou - e muito. Foram oito copas do mundo, quatro papados, num Brasil com e sem inflação, antes e depois do divórcio, pré e pós utopias. "Nesses 30 anos, Gretchen disse poucas palavras ao Brasil, poucas palavras, mas inesquecíveis". Ao som de 'piripipi' e uma meia-luz brega piscante, a voz off dá lugar à plateia que assiste o show de Gretchen – o que  parece ser a única atração sensual dos circos pelo interior do nordeste brasileiro.

Se o rebolado de Gretchen não é glamouroso, ao menos parece ser democrático. Pelo documentário, sabemos também que o remexido de seu quadril é assistido em posto de gasolina, circo e baile funk. “Pelo interior e pelas capitais, nos salões dos ricos e dos pobres. Pelos bairros dos pretos e dos brancos, pelas festas dos heteros e dos gays”. Talvez seja essa a mesma lógica que a levou a pleitear uma cadeira na prefeitura de Itamaracá: sobreviver. Não importam os meios, seja plateia ou eleitorado, é rebolando que Gretchen sempre assegurou sua fonte de renda.

O documentário também contamina o trajeto da personagem, numa simbiose que interessa à análise atenta. Em uma de suas falas aos moradores de Itamaracá afirma ter sido pioneira de muita coisa, o que deixa escorregar uma possível massagem no ego, provavelmente na gestação do projeto, em que Gretchen se vê assim mesmo: precursora do rebolado no Brasil. Se remexer o quadril por três décadas lhe rende um espaço como o de um documentário no cinema, o óbvio é que sirva também de argumento na campanha.

A promessa lançada ao povo também é precursora para a ilha: criar o Itamaracá Futebol Clube. É nesse momento de certezas pioneiras que se fundem a Gretchen estrela e a Maria Odete, duas pessoas costuradas pela ilusão de que a fama ainda tem bastante poder sobre a miséria da vida. 

São tantos os significantes do documentário que fica difícil classificá-lo como sendo apenas a trajetória de Gretchen na política

Nascida no Rio de Janeiro, hoje com 54 anos, Gretchen viveu 11 anos na Ilha de Itamaracá. Tempo suficiente para legitimar a candidatura, mas incapaz de estabilizar o sotaque pernambucano. Fica evidente a troca de ritmos em sua fala quando Gretchen se dirige ao eleitorado (sotaque arrastado) e quando está fora das ruas (embora carioca de nascimento, tem sotaque paulistano).

Outro traço percebido na estratégia adotada pelos políticos em época de campanha e que Gretchen deixa evidente: falar na língua do povo quando lhe é conveniente. Depois das ruas e eleição vencida, dificilmente vamos vê-los tão juntos de seu grito de socorro.

São tantos os significantes do documentário que fica difícil classificá-lo como sendo apenas a trajetória de Gretchen na política. Porque é muito mais que isso. É sobre o Brasil e sua faceta frente ao imaginário popular e a exibição desse imaginário galgando o comando político. Como se fosse mesmo possível levar a sério alguém que discute propostas no comitê e depois rebola no circo da cidade ao som de um playback que, após 30 anos, já não empolga mais.

O resultado foram 343 votos na Ilha de Itamaracá (cerca de 2% dos votos válidos) e a ausência de candidatos da coligação nas cadeiras da câmara de vereadores. Um fracasso. Em 2013, cinco anos após a campanha política, os jornais divulgam o 17º casamento da cantora, que atualmente mora em Paris com o esposo. A rainha do rebolado abandonou a política e foi rebolar em outras terras, tratou de se assegurar financeiramente na vida. Parece ter alcançado mais sucesso na França que nos circos e comícios de Itamaracá.

Gretchen Filme Estrada
Direção e roteiro: Eliane Brum e Paschoal Samora
Gênero: Documentário
Origem: Brasil
Ano: 2010
Duração: 90 minutos
Tipo: Longa-metragem
Produtora: Mixer

Confira abaixo uma apresentação do documentário. 

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