30/05/2013 12:12 - Atualizado em 30/05/2013 12:44

Críticas

Bando de Teatro Olodum se arrisca fora da zona de conforto

O grupo explora as possibilidades criativas do butô, numa simbiose entre supostos contrastes

Colaborador
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Arte de Escrever

, palavra japonesa que significa “movimento” é o nome do mais recente espetáculo do Bando de Teatro Olodum, grupo residente do Teatro Vila Velha. Numa atitude plena de maturidade e generosidade, o diretor teatral Márcio Meirelles cede a direção desse trabalho ao coreógrafo e bailarino japonês Tadashi Endo, um dos nomes mais respeitados do butô atualmente.

Dessa forma, a companhia se confronta com princípios e referências de criação que a deslocam da zona de conforto, reduzindo bastante o foco de abordagem político-racial do grupo, distanciando-se da dramaturgia calcada em aspectos de forte marca identitária e regional da cultura negra, para outros planos de linguagem mais universais.

Não é que essas características tenham sido abandonadas, a percussão continua lá, assim como os arquétipos do candomblé, a voz ancestral da cantora baiana Virgínia Rodrigues e diversos outros componentes estéticos; mas o processo criativo entra num 
universo de construção em que o movimento e a gestualidade se tornam a base do trabalho.

As possíveis polaridades se apresentam já na abertura do espetáculo, com a projeção de um vídeo em que se observam “prováveis fatores opostos” diluídos em transições de imagens, como a passagem do dia para a noite ou do deserto para o mar, aguçando 
nossa percepção de fenômenos e elementos simples da natureza.

De alguma forma, isso se contrapõe e reflete sobre a maneira como Ocidente e Oriente se relacionam com tal cotidiano, muito própria dos princípios de criação coreográfica do Butô. Afinal, a ambiguidade é uma das grandes características dessa dança contemporânea japonesa, criada no fim dos anos 1950 pelo mestre Tatsumi Hijikata (1928-1986).

A primeira cena do espetáculo é emblemática nessa nova proposta, por inverter a função de objetos e o imaginário de alguns signos da nossa cultura. Assim, o elenco entra em cena equilibrando um sapato na cabeça, um outro na mão direita, além de uma mochila nas costas.

O sapato, ao qual se atribui sustentação e equilíbrio, calça a mão de um mundo marcadamente destro, cartesiano, e, ao mesmo tempo, se destitui desta matéria de estabilidade e ocupa a cabeça do ator, onde se convenciona o plano simbólico da consciência e do pensamento. Exige dele técnica e concentração, desafiando os intérpretes do grupo, acostumados a vivências mais vigorosas e atitudes cênicas de maior enfrentamento, a explorarem outros tempos, ritmos e interações com o espaço. 

Assim, se propõe a experimentar uma série de fundamentos, do equilíbrio ao desequilíbrio, do peso à leveza, da rapidez à lentidão, da velhice à infância, do preto ao branco e outros supostos polos de referência para a criação, que se estabelecem na
relação entre a estética negra do grupo e a estética do Butô, configurando outro modus operandi da cena, que talvez não tivesse tanto impacto, caso não se tratasse da história do Bando de Teatro Olodum.

Desde Bença, a companhia investe num elenco ainda mais autoral, abrindo espaço para que os atores assumam o lugar de intérpretes-criadores, assinando de fato a movimentação e o discurso cênico da obra. A partir dessa perspectiva, nasce Dô, num intercâmbio entre a Terra do Sol Nascente e a Baía de Todos os Santos.

+ Acesse o blog do espetáculo: www.materialdomovimento.wordpress.com
+ Leia: O Teatro do Bando: Negro, Baiano e Popular, de Marcos Uzel (Editora P555, 2003) 

O Colaborador do Portal, Arlon Souza, é jornalista, ator, repórter, editor e produtor de televisão, com atuação em programas como Soterópolis e TVE Revista.

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