04/05/2013 17:27 - Atualizado em 19/05/2013 21:43

Críticas

Franz Kakfa nos convida para uma dolorosa "metamorfose"

O desinteresse, a negligência e o desprezo da sociedade por pessoas improdutivas ou debilitadas podem ser algumas das reflexões do livro

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever
Capa do livro A Metamorfose

Como abater medos e paranóias que afligem nossa alma? Como lidar com algo abstrato, criado e difundido em nossa mente, que muitas vezes não é do conhecimento das pessoas próximas a nós?

Já imaginou você – estudante, professor, delegado, médico, escritor, gerente comercial – acordar transformado em algo asqueroso? Nojento de se ver e que cause repulsa em outras pessoas?

De origem judaica, Franz Kafka (Praga, julho de 1883 - Klosterneuburg, junho de 1924), foi um dos maiores escritores do século XX. Tumultuado por problemas pessoais, não chegou a ver publicado a maior parte de seus textos, publicados postumamente. Ele é o  autor do famoso livro “A Metamorfose”, obra escrita em 1912, publicada em 1916, e considerada por muitos autores como surrealista.

“A Metamorfose” conta a história surpreendente de Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante que vivia com sua família e era o provedor financeiro das despesas da casa. O pai de Gregor estava desempregado; a mãe não trabalhava e a irmã ainda estava na escola. Ele os sustentava com seu trabalho e salário e não recebia qualquer reconhecimento da família por isso. Ainda tinha como chefe um homem pérfido.

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos, encontrou-se metamorfoseado num inseto monstruoso”. Para alguns leitores a descrição do inseto lembra uma barata; para outros, um besouro. A situação de metamorfose ocorrida com o protagonista da história evidencia uma análise do valor sentimental e do interesse visível que os seres humanos demonstram ter por bens materiais. 

Ele talvez aponte o desinteresse, a negligência e o desprezo da sociedade pelos enfermos e por pessoas improdutivas, já que uma pessoa debilitada – transformada num inseto repugnante – não pode ter uma vida normal, cotidiana, de trabalho e produção, não pode contribuir para o desenvolvimento da sociedade e dos valores burgueses.

Escritor Franz Kafka, falecido em 1924

O livro trata da condição humana e da humilhação que uma pessoa pode sofrer, fazendo uso de uma linguagem rica em ironias e metáforas, que se aprofunda nas relações de poder dentro do ambiente familiar.

Com a nova situação, a relação de Gregor com a família também sofre mudanças significativas, mas não necessariamente boas ou positivas. Enquanto ele vai sentindo as transformações de seu corpo, agora um inseto horrível com um “dorso duro e inúmeras patas”, sua família desloca o eixo de atenção, assumindo responsabilidades quanto ao pagamento do aluguel e à manutenção da casa. O pai consegue um emprego de porteiro; a mãe, de costureira, e a irmã passa a fazer pequenos serviços domésticos.

Em relação a Gregor, a família assume postura de distanciamento e inquietação. A mãe e o pai não se aproximam do quarto e também não desejam que o filho saia de lá. Preferem não ter contato. Gregor é alimentado pela irmã, a única que entra no quarto para levar comida estragada e outras coisas podres para ele comer. Ao deixar de sustentar a casa, o jovem nota a sua real importância no seio da família: talvez nenhuma.

Qual era o maior medo que afligia Gregor? Talvez a resposta seja encontrada nas páginas do livro ou talvez na reflexão individual que cada um faz ao se deparar com uma situação adversa ou conflituosa. Qual era o maior medo que norteava a família de Gregor? Qual é o medo ou paranóia que norteia cada um de nós?

A pergunta é lançada por Kakfa e vale a pena a leitura da obra para se ter uma ideia melhor. 

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