11/03/2013 15:29 - Atualizado em 23/02/2016 22:54

Contos

À espera do apagar das luzes

Marcado por adultério e medo da morte, Roth apresenta um personagem comum e solitário

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever
O livro foi publicado no Brasil em 2007

O título original da obra de Philip Roth é Everyman, que é o nome de uma peça alegórica do século XV, cujo tema é um convite dos vivos à morte. No Brasil, o livro foi publicado em 2007 e recebeu o nome de “Homem Comum” (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 136 páginas; 31 reais). Como não poderia ser diferente, a obra desenvolve-se em torno de um tema recorrente à imaginação humana: a certeza da morte. Como elementos secundários, Roth usa a solidão e a velhice para a construção de homem comum.

Numa narrativa interessante e bem detalhada, Roth, romancista norteamericano de origem judaica, considerado como um dos maiores escritores da segunda metade do século XX, começa a história durante o funeral desse homem comum. Embora o personagem tenha tido uma vida longa, com certo prestígio profissional, o que lhe rendeu conforto na velhice numa bela casa de praia, não conseguiu estabelecer relacionamentos duradouros, nem mesmo com alguns membros de sua família. Talvez por isso, a solidão tenha-lhe feito companhia em seus últimos dias de vida. 

O autor organiza os fatos da vida do protagonista, um publicitário talentoso e artista plástico frustrado, pelas internações e experiências de doença que ele teve ao longo da vida. Uma lembrança que ele carrega consigo é de uma internação que teve na infância para uma cirurgia de hérnia. Na ocasião, dividiu o quarto com outro garoto que se recuperava de uma cirurgia no estômago. O protagonista sobreviveu à cirurgia, mas reviveria o drama desse dia nas horas de tensão e angústia, anteriores a outras cirurgias que realizaria, pela lembrança de que aquele garoto morreu.

Pouco é dito ao leitor sobre o primeiro casamento do personagem. Apenas que a principal razão do insucesso do matrimônio foi o adultério praticado por ele. Para Roth, o sexo é um elemento muito importante na construção do personagem, pois é uma manifestação natural do corpo que precisa ser concretizada, ainda que isso cause prejuízos ao protagonista. O autor faz um recorte na história do primeiro casamento, deixando uma lacuna em aberto sobre as falhas cometidas pelo protagonista para não ter o amor de seus dois filhos. Ambos adultos comparecem ao funeral do pai por uma mera formalidade familiar, sem demonstrar dor ou tristeza pelo ocorrido.

O curioso é observar que Nancy, a única filha do segundo casamento com Phoebe, tinha pelo pai um amor devoto e incondicional. Os dois desfrutaram de um relacionamento bastante estável e carinhoso. Durante a doença e nos momentos de tristeza e desânimo do pai, a filha deu-lhe muito apoio, inclusive incentivando-a a voltar a pintar, já que isso representava para o personagem uma realização pessoal tardia.

De origem judaica, Roth é considerado um dos maiores escritores norteamericanos da segunda metade do século XX

O protagonista é um homem muito ligado ao sexo e que busca na prática sexual algumas realizações humanas. O casamento feliz com uma mulher que demonstrava amar muito, não foi razão suficiente para ele ser-lhe fiel. Ele também foi um homem que amou e admirou muito o irmão mais velho, embora também nutrisse uma inveja silenciosa e mesquinha dele. Howie, o irmão, era dono de uma saúde de ferro e nunca havia tido uma doença grave. E ao contrário do irmão, manteve um casamento feliz e estável e teve dois filhos que o amavam muito.

A instabilidade emocional do protagonista é apresentada pela troca do amor e da segurança do casamento que tinha com Phoebe (a única mulher com quem realmente havia construído uma relação sincera), por investidas de sexo e apenas sexo com sua secretária, e posteriormente, com uma modelo da agência, por quem teve sua libido “hipnotizada”. A consequência mais devastadora da segunda traição foi o casamento com a tal modelo. Tomado por uma enorme vergonha e também para encobrir ou justificar seu erro, pareceu razoável a ele transformar a modelo Merete, bem mais jovem e incapaz de lhe ajudar em seus tratamentos de saúde na velhice, em sua terceira esposa.

A história deixa a desejar em uma situação: quando não se aprofunda no romance que o protagonista teve com sua enfermeira Maureen, a qual lhe prestou cuidados durante a recuperação de uma cirurgia. Para o leitor pode ter ficado uma expectativa frustrada de Maureen não ter sido recuperada mais adiante na história, na ocasião em que o protagonista se mudou sozinho para a praia, por exemplo. A enfermeira foi também responsável por trazer vitalidade à vida desgastada pela doença do protagonista, mas o autor tirou de nós a possibilidade de conhecê-la mais. Ela poderia ter sido uma personagem de traços complexos, diferentes das demais descritas no livro, e poderia ter feito uma diferença na vida do homem comum.

Foram as palavras e gestos afetuosos da filha Nancy e a carinhosa lembrança e homenagem do irmão Howie que transformaram aquele funeral em algo menos rotineiro ou frio que os demais. Aquele homem teve uma vida comum e talvez os amigos e familiares que estavam ali – de pé em frente à sepultura dele – não tivessem dúvida quanto a isso. Minutos depois, ele ficou ali sozinho e todos foram embora: alguns com a sensação de dever cumprido; outros pela dor, indiferença ou alívio, e outros ainda pela satisfação.

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