28/05/2016 14:11 - Atualizado em 19/07/2017 13:37

Coluna

A lição que aprendi com a Borboleta Atíria

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever

Nove ou dez anos de idade, terceira série numa escola nova, colegas que tinham hábitos bem diferentes dos meus, cidade grande que mais me parecia o prelúdio de um filme de terror. Década de 90.

Todos naquela classe pareciam, de alguma forma, ricos aos meus olhos tímidos. Se considerarmos como “riqueza” poder participar dos passeios que a escola organizava ou mesmo comprar material escolar sem ter de parcelar em duzentas e quarenta vezes e ainda pechinchando muito com os vendedores das lojas, sim, todos ali estavam numa situação superior à minha.

Minha professora era uma mulher branca, obesa e intolerante com bagunça. Costumava fazer comentários nada produtivos sobre festas de aniversários que ia. Quem levou o melhor e mais caro presente e quem compareceu apenas para desfrutar da festa. Algumas vezes eu nem compreendia – no auge da minha inocência infantil – o que afinal aquela mulher queria dizer. 

Como é difícil ser uma criança pobre em meio a tantos outros – que embora pobres também – ostentem uma condição melhor de vida ou talvez, melhor travestida (penso hoje). E foi assim que me detive – quase resignada – com uma situação complicada numa infância que já não prometia muitas coisas: precisava ler um livro infantil para realizar uma prova de português. Acreditem: isso desencadeou uma Odisséia digna de Homero.

Confesso que precisei recorrer ao tio Google para me lembrar do enredo da história. Recordo-me apenas do nome do livro e claro, de algumas lições que ele me trouxe até aos dias de hoje. Coleção Vaga-Lume, autora Lucia Machado de Almeida (falecida em 2005), livro “O Caso da Borboleta Atíria”. 

O enredo apresenta um crime que acontece no mundo dos insetos. A noiva do Príncipe Grilo foi assassinada. Os mesmos criminosos seqüestram a borboleta Atíria. Quem seriam eles e qual o motivo do crime? – parece incrível, não? Nem consigo agora pensar a respeito.

Foi minha primeira leitura obrigatória na escola, até onde minha memória me permite buscar. Foi também minha iniciação na literatura nacional e no mundo encantado dos livros e das fantásticas, incríveis, sofridas, envolventes, misteriosas e encantadoras histórias que nos transportam para outros lugares, outras épocas, que simplesmente nos tiram daqui e nos apresentam de forma desafiadora e às vezes magistral a personagens que ora se tornam nossos melhores amigos e em outros momentos, conseguem até nos fazer odiá-los (como se fossem reais). Faço aqui meu agradecimento àquela professora, que mesmo sem saber ou intencionar, também contribuiu para meu aprendizado. 

A leitura em si não me causou nenhum espanto ou desafio ímpar. Espanto mesmo foi constatar que meus pais não podiam comprar o livro de jeito nenhum, por mais barato que fosse, em razão da situação financeira precária que nos encontrávamos. Até me lembro de meu pai dizer algo do gênero “por que os professores ficam inventando essas coisas? Quando eu estudei não era assim” e minha mãe retrucando do outro lado com sabedoria e tolerância “os tempos mudaram e nós só estudamos até a quarta série”.

A realidade era dura! Vida modesta com aluguel para pagar, supermercado para fazer, contas de água e luz a vencer e meu pai fazendo bicos e ganhando trocados ínfimos que mais davam brechas para brigas familiares do que suprir esses fins.

A prova estava se aproximando e meus colegas liam o livro por obrigação, sem nenhuma dificuldade e também sem demonstrar qualquer interesse ou apego. Quase todos compraram, quase todos podiam adquiri-lo. Quando me perguntavam sobre como andava a minha leitura, meus olhos baixavam-se ao chão na tentativa de encontrar um buraco para me esconder e de forma envergonhada, eu dizia quase sussurrando que “estava esperando uma colega terminar de ler para depois me emprestar”. A réplica era automática, certeira e pontual, independente de com quem conversava. “Mas por que você não compra?”. Às vezes ainda davam o tiro de misericórdia (sem misericórdia alguma), que era capaz de acabar com meu dia e até com minha semana, dependendo do tom da voz: “é tão baratinho”.

Até poderia ser... mas não era para mim...Parece engraçado olhando agora... mas asseguro que naquela época não era.

Quando finalmente consegui pegá-lo emprestado com essa amiga – que muitas vezes depois disso, me emprestou outros livros e materiais escolares que precisei, não sei se por dó ou generosidade (prefiro acreditar na segunda opção) – a prova já estava marcada e bem próxima. Eu precisava correr com a leitura e prometi devolver alguns dias antes do exame para dar tempo dela ler ou folhear mais uma vez.

Em resumo, eu precisava correr uma maratona inteira, ultrapassar vários obstáculos e cruzar a linha de chegada com maestria sem, entretanto ter, qualquer preparo para tal. Como faria isso? Seria uma aventura solitária e apressada e ainda correndo o risco de não conseguir concluí-la com êxito. Conseguem imaginar um drama mais dolorosos para uma criança?

Foi então que minha mãe, minha preciosa mãe, teve uma idéia ousada e inusitada que se estendeu ao coletivo e pareceu resolver de maneira criativa aquele drama familiar que já estava dando o que falar na escola. Eu não poderia ter o livro, certo? Mas poderia copiá-lo num caderno para mim. Ou não? Foi exatamente o que ela propôs.

Não sei quantas páginas esse livro tem e também não me lembro quase nada da história (já faz muito tempo). Mas me lembro da singeleza do gesto de minha mãe, que não somente me ajudou a copiá-lo, como também me contava as partes que ela lia (quando copiava), para eu não me atrasar no processo.

Além disso, também envolveu meu irmão no desafio familiar. Foi uma leitura realizada por nós três, ainda que em partes, sendo que a maior parte foi copiada e lida por mim, óbvio. Quando eu não agüentava mais copiar e minha vista já não via mais nada à frente, minha mãe assumia a tarefa. Na sequência, meu irmão o fazia. E assim, em menos de duas semanas eu havia lido o livro por inteiro. Aliás, nós três havíamos lido (o que foi ainda melhor).

Meus colegas podem ter comprado o livro sem nenhuma dificuldade... mas posso apostar que nenhum deles viveu uma experiência tão singular como a minha.

Na escola, acabei comentando por pura ingenuidade (para não dizer burrice) que estávamos copiando o livro. Pobre ilusão a minha achar que eles eram capazes de compreender ou mesmo respeitar aquilo. O que mais ouvi foi uma interjeição de espanto e indignação “Você é louca, pra quê isso?” Hoje penso que eles também eram crianças, assim como eu e, portanto, também não sabiam ao certo o que aquele gesto significava.

Só sei que no final das contas eu tirei uma boa nota na prova e tive o livro para mim, de um jeito diferente, mas ainda assim, todo especial. E que, lembrando-me agora de como foi, sinceramente me sinto agradecida à vida.

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