28/05/2016 12:32 - Atualizado em 20/07/2017 12:05

Coluna

Tocada por nostalgia

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever

Quando criança, tive uma infância pobre. Meus pais tinham profissões de baixa remuneração, não haviam sequer concluído a escola básica e eram, por conseqüência, pessoas simples que labutavam pelo pão nosso de cada dia com empenho e algum estresse.

Aos 8 ou 9 anos comecei a me deslumbrar pelas bonecas que falavam, cantavam ou emitiam qualquer som ambiente. Pareciam querer se comunicar comigo. Meus olhos brilhavam. Eu era uma criança romantizada pela ideia de cuidar de uma boneca que chamaria de filha.

Mas assim como a menina pobre recifense de 8 anos do conto "Restos do Carnaval" da maravilhosa Clarice Lispector, aquela realidade estava alheia a mim. E se me permitem a paráfrase, via o “Carnaval” apenas pela janela, como narra com nostalgia a triste protagonista do conto literário. “No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé da escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem”.

É claro que só fui conhecer Clarice anos depois, quase adulta… mas como ela me fez, com esta produção sensível, revisitar o passado da minha infância clandestina…

Mas voltando à boneca, minha família não tinha dinheiro para bobagens de criança. Não que brincar não fosse algo legítimo ou válido aos meus pais. O eram. Contudo, o dinheiro que entrava em casa era para as necessidades básicas… mal dava para isso, algumas vezes (verdade seja dita). Ponto final.

E assim, sonhei, sofri, vivi, senti e chorei com aquele desejo que aflorava, fervia e crescia dentro do meu ser. Minhas colegas da escola, quase todas, tinham a boneca Barbie. Até algumas menos favorecidas do que eu, financeiramente falando (se me permitem o eufemismo), ostentavam a beldade loira apática e magricela diante de mim. Haviam ganhado de primas que não queriam mais; herdado de alguma colega que ganhou outra melhor ou uma nova coleção.

O desejo pela boneca ganhou uma dimensão ainda maior e mais dramática, quando, certa vez a professora sugeriu que para comemorar o Dia das Crianças, todos os alunos trouxessem seu brinquedo favorito para brincar em sala de aula e claro, compartilhar com os colegas. Até hoje me pergunto porquê ela cometeu tamanha atrocidade comigo. O que eu fiz para aquela mulher?

E como explicar à minha mãe que precisava levar um brinquedo decente, que tivesse valor ou estima diante dos meus colegas de classe? Ela se ofenderia ou brigaria comigo se percebesse que eu me sentia envergonhada com aqueles brinquedos improvisados da minha humilde coleção particular, às vezes produzidos artesanalmente por ela.

Simplesmente não dava para levar aquela imitação barata de Barbie que ganhei, nem sei de quem, que estava velha e suja de tanto que eu já tinha brincado com ela! Pensei em ficar doente no dia; pensei em pedir para faltar à aula. Pensei e pensava em como escapar daquela arapuca que estava diante de mim… O que fazer?

Conforme o dia se aproximava e eu ia testemunhando a empolgação dos meus colegas pela festinha de criança, mais apreensiva ficava. Sinceramente? Deveria ser proibido por lei, com pena capital ou prisão perpétua, que uma criança de 8 ou 9 anos seja submetida a constrangimento tão desumano!

Mas como a vida é cheia de surpresas e, às vezes o sol também nascia no meu quintal (que nas palavras do poeta Manuel de Barros “é maior do que o mundo”), uma colega de classe, que eu considerava rica e antipática, resolveu me socorrer (sabe Deus por qual motivo). Ela tinha um exército de bonecas Barbies originais e disse que traria uma delas para eu brincar. Agora pensem qual foi minha reação! Por fora, agradeci resolutamente, como convém à boa educação familiar. Por dentro, comemorei como a chegada do ano novo, com muitos fogos de artifício e sem nenhuma parcimônia.

E a data se aproximava a passos largos. As horas eram minutos e a euforia do meu pequeno coração já não cabia dentro do peito. E quando via as propagandas que passavam na TV de casa, sentia-me quase flutuando. Finalmente iria brincar com uma boneca de verdade. Que alegria!

Querem saber o desfecho dessa história de amor e fúria, felicidade e dor, prazer e nostalgia?

Pois bem: no dia marcado para a tal festinha das crianças, cheguei cedo e cheia de expectativas e anseios. A professora e algumas colegas já estavam arrumando a sala, cobrindo as mesas com toalhas coloridas de plástico e dispondo os lanches que seriam servidos. Balões já enfeitavam as paredes e alguns cartazes de “Feliz Dia das Crianças” estavam colados.

Minha pseudo colega cheia de boas intenções chegou bem atrasada. De cabelos presos e andar firme, passou pelos colegas e se jogou ao chão, próximo ao monte de brinquedos que já ocupava o centro da sala. Meu coração já dava sinais de uma síncope precoce e iminente. Alguém me segure, por favor!, foi o que clamei sem ninguém ouvir.

Quando tirou os brinquedos da mochila e colocou-os no chão, junto aos demais que ali estavam, não havia uma segunda boneca na bolsa. A mochila foi todinha esvaziada, brinquedo por brinquedo (e olha que ela trouxe muitos e variados), mas boneca mesmo, ela só trouxe uma, a dela, a boneca que ia brincar. E se mostrou incapaz de olhar na minha direção para desculpar-se pela traição mesquinha.

E o tempo passou e a vida seguiu seu curso...

Dois anos depois ou um pouco mais, talvez, ganhei minha primeira (e até onde lembro) única boneca à pilha falante. Linda! Loirinha, tinha uma chupeta, uma mamadeira e usava uma roupinha de frio azul de lã, típica de inverno. Ela falava “mamãe” e “quero mamar”. Também chorava se ficasse muito tempo sem a chupeta. Presente suado e sofrido de minha mãe, minha preciosa mãe, que foi guerreira e obstinada para juntar dinheiro meses a fio com o intuito de presentear a mim e meus irmãos com um brinquedo que nos fizesse brilhar os olhos. E eles brilharam como lanterna. De nós três.

Não lembro ao certo por quanto tempo essa boneca ficou comigo. Mas me lembro dela até hoje, com riqueza singela de detalhes. É uma daquelas lembranças que cem anos não podem apagar… sequer embaçar.

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