20/05/2013 15:38 - Atualizado em 24/05/2013 15:20

Coluna

Cssio Lzaro: o artista que d forma e sentido ao ao

Vivendo da sua arte há quase 50 anos, o escultor diz que precisava canalizar a rebeldia que havia dentro de si e a melhor forma encontrada foi criando e inventando coisas

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever
Um dos trabalhos do artista

Nascido na cidade de Cássia, Minas Gerais, em 1952, o artista plástico Cássio Lázaro sempre quis sair de lá. As razões eram muito simples. Sua vida era muito humilde e o lugar muito pequeno, com poucas oportunidades de trabalho. Ele queria alçar altos voos.

“Desde pequeno eu era muito rebelde, fugia da escola. Então surgiu uma oportunidade e eu não pensei duas vezes. Saí de lá com 14 anos”, lembra-se.“Uma vez eu tentei fugir de caminhão. Eu vim com um tio para morar na casa dele, mas não deu certo e fui morar numa pensão. Nessa época eu já trabalhava no banco Itaú, como office boy, e gostava de desenhar o rosto das pessoas. E eles me deram uma bolsa de estudos na Panamericana, mas não fiz nada ligado à arte. Acabei fazendo publicidade. Concluí o curso, mas nunca exerci a função”.

O escultor conversou com o Arte de Escrever durante uma exposição que fez na PUC-SP Campus Barueri. Confira abaixo:

Como foram suas primeiras experiências com a arte?
Um dia eu entrei numa galeria de arte na rua Augusta e vi um artista que trabalhava com esculturas em aço, que lembrava um semiabstrato, tipo figurativo. E isso foi um toque, tipo um cascudo na testa. Aquilo bateu com a minha rebeldia: é isso que eu quero. Comecei a trabalhar, fiz aula de solda, meu irmão tinha conhecimentos disso, então fiz para aprender a usar o maçarico. Peguei o aparelho e comecei a soldar. Minha primeira peça foi o ‘Homem de aranha’, título dado pelo meu irmão.

Como conciliou essa produção com o trabalho no banco?
Ainda trabalhava no banco e fazia isso nas horas vagas. Criei uma linha de trabalho em chapa de aço. Até aí eu não sabia o que era arte, fazia por intuição. Quando eu vim para São Paulo, fiquei tão surpreso com os prédios altos, com a tecnologia da época. Com esses trabalhos em chapas eu queria mostrar a força da técnica. A força que o homem tem. Eu descobri uma técnica que dá nó em chapa de aço, faz umas formas sinuosas que envolvem o aço e a solda dourada. Até aí nada de saber o que era arte, ali era a força da técnica. Esse trabalho eu expus no Banco Itaú. Logo em seguida eu participei da Bienal. As peças foram destaques na televisão, capa de jornal e tudo. Eu pensei: o que é isso? O que eu fiz? Onde está a arte? O trabalho que todos achavam bonito, eu não entendia. Então eu voltei a trabalhar o figurativo, que é o que eu entendo. Voltei a fazer figurativo em escultura. Comecei a modelar um torso de mulher em barro, aí eu olhei para a peça e pensei: muito comum. O mundo já fez isso. Taquei aquilo no chão – ah, isso não serve para nada, pensei – Aquilo quebrou e as peças foram rolando no chão. Aí peguei os pedaços e vi as formas diferentes que gerava, quando você desloca a forma da mulher para fragmentos. Aí surgiu a ideia dos fragmentos. Pesquisei a fundição e tudo mais e comecei a fazer. Daí veio aquele torso de mulher em pedaços. Eu fiz uma pesquisa complicada e longa. Fui fazendo e vendo, isso me deu uma sustentação. Eu fiquei 13 anos fazendo isso. E isso me fez enxergar a arte. Esse trabalho canalizou a minha rebeldia. Quando eu saia na rua, me envolvia em três brigas por noite. Mexiam comigo e eu não levava desaforo para casa. Por que eu quis sair da escola? Porque nossa família era muito humilde e a escola era uma só na cidade. Se eu arranjasse alguma desavença com alguém lá, era briga na certa. Eu era rebelde, então descia o cacete nos moleques, lembra em meio a risos.

Você mantinha contato com a sua família enquanto estava em São Paulo?
Certa vez pintou um pessoal na escola recrutando alunos para a escola de agricultura, em Franca. Eu me recrutei, levei meus pais para assinarem e fiquei um ano e meio lá. Um dia me puseram de castigo por uma coisa que eu não fiz e eu fugi de lá. Eu fazia e vendia minhas obras. Sabia o valor das obras comparando com as dos outros artistas. A junção dos fragmentos me ensinou a arte.

Mas afinal, o que entende por sua arte?
Cada um dá uma resposta quando a pergunta é “o que é arte?”. Eu acho que a arte não deve ser parecida com nada; ela tem de ser o que é por ela mesma. Por isso que eu trabalho com o abstrato. Passei muito por figurativos até aprender a certa. Você começa a abstrair aquelas formas e causa mensagem diferente para cada pessoa que olha. Cada pessoa imagina. Cada pessoa tem um sentido artístico. Você começa a analisar dessa forma. Eu fui amadurecer na arte com uns vinte anos. Eu não enxergava. Quando me veio esse caminho de enxergar a arte através do bronze, da lama, aí eu comecei a perceber as corrosões no chão. É arte. Parede quando tem umidade e começa a soltar aquelas bolhas... não é que aquilo seja arte, mas você consegue ver arte naquilo.

Um dos trabalhos do artista

Qual sua fonte de inspiração para o trabalho?
O que eu faço é inspirado na natureza. Você pega uma folha quando cai. Aquela folha que está apodrecendo, se desmanchando, ela talvez tenha mais do que uma folha que está inteira. Quando você olha a folha inteira, vê ali, tudo a ver. Mas quando ela está aberta, você mostra o que tem dela e você vê as fibras, as divisões. Agora o difícil disso é você passar aquilo para o aço. Eu descobri que a criação anda emparelhado com a técnica. É como um cantor sem técnica. Ele não se define, não se destaca. Vive plagiando. Por isso que existem os conhecidos. Quando você ouve um Caetano, uma Bethânia, um Gil, você vê a linha que ele segue, estilo de voz que ele canta. Eu fiquei 12 anos sem criar nada, apenas praticando, mas quando descobri o que era arte, tudo ficou mais fácil. Eu andei muito tempo rebelde. Criava e vendia minhas obras, mas não frequentava galerias. Eu não sabia o que era artes plásticas, eu não recebia inspirações, fazia os trabalhos por impulso. Eu ia para o bar beber. Não me relacionava.

Como você descreveria uma artista?
O artista é muito solitário. Ele fica ali no cantinho dele, criando suas obras. De uns anos para cá é que eu comecei a frequentar galerias e exposições. Eu descobri que quando um artista é fechado, ele não é chato, ele é tímido.

É possível encontrar inovação no seu trabalho, nas suas obras?
Acho que minha obra traz a inovação por meio dos outros. Numa reportagem da Revista Caras um jovem entre 20 e 30 anos ao compor sua primeira obra citou o meu nome e de mais dois artistas. Quando você está agradando ao jovem, boa coisa está sendo construída. Digo isso porque considero que o jovem seja muito exigente. Antigamente obra de arte era para velho. O meu trabalho é muito diferente, pois uso técnicas diferentes, e quando você faz isso, o trabalho fica modernista. Num trabalho recente que fiz, eu pinto a chapa primeiro, depois vou queimando com a tocha e arrancando pedaços da chapa, fazendo aquelas fibras, aquelas rendas. Como o homem evolui, o artista vai no consentimento de que as coisas têm de sair modernas. Se você fizer as coisas inspiradas no passado, não dará certo. Você tem que se impor em cima disso, romper barreiras, a ponto de ver que qualquer detalhe na natureza é arte, é só você dar uma outra visão. Comecei a pesquisar que um papel jogado no chão é um lixo que está ali, mas se você pega esse papelzinho, olha com outros olhos, abre um pouco, o imagina com três metros de altura, ele se impõe e vira uma 'puta' forma. Coisa mais linda. Esse amassado parece que é a essência do figurativo. Você vê alguma coisa amassada de longe e fala: é uma figura. Você chega mais perto: é um negócio amassado!

Como você divulga seu trabalho?
Demorei a entrar na internet. Ela é muita rápida e dinâmica e eu tinha medo de alguém me plagiar. Mas eu crio muitas coisas a toda hora. Eu tenho uns quinze segmentos e cada um abre um leque de opções. Eu tenho uma equipe familiar que trabalha comigo. Eu trabalho com um sobrinho e um irmão. Eles ajudam nas entregas, no auxilio para construção da obra. Eu vivo de arte há quase 50 anos. Mas no começo eu fazia abajur, mesa, outras coisas. Tudo que eu faço eu comparo comigo. Até a rebeldia em um trabalho de arte se torna leve. Ganha uma outra forma. Fica delicado, fica moldada. Quando comecei a fazer obras em fragmento, me fragmentei também. Por ser um trabalho que envolve uma técnica que eu criei, ele é manual, totalmente artesanal. A única coisa que uso da tecnologia é o aparelho que corta o aço, que a divide.

O que aprendeu com seu trabalho ao longo dos anos?
A arte vai te ensinando. Eu aprendi a ser artista com o meu próprio trabalho. Aquela obra de arte te dá um gancho para outra obra melhor. Tem obra que eu faço, depois mexo novamente, pois noto que não está legal. Pela experiência, quando faço um trabalho, eu já penso na aceitação da obra. Você passa a enxergar como crítico de arte. Você produz pensando como um jornalista ou um leigo vai olhar. Se a arte for boa, a própria arte vai se sustentando. Quando eu morava em Minas, eu desenhava. Um dia eu desenhei o rosto do meu irmão. Daí um senhor daqueles que a gente admira disse: 'Nossa! Esse menino vai longe. Muito inteligente esse moleque'. E eu cá comigo: inteligência? Então eu vou ficar por aqui, isso é muito fácil. Eu queria ser tão autodidata que eu não queria estudar nada, queria aprender tudo sozinho. O reconhecimento de um artista vem pelas obras que ele cria e pelo impacto criado com seu trabalho.

Obra do artista Cássio Lázaro

Conheça alguns prêmios que o artista já ganhou com seu trabalho:

Prêmios
1975 - Bienal Nacional de Artes Pláticas - São Paulo
1977 - Salão de Arte Contemporânea, Belo Horizonte - MG - Medalha de Prata1980 - 1º Salão Nacional de Artes Plásticas Pablo Picasso - Medalha de Prata
1986 - Salão de Arte Contemporânea - Curtis Hixon Convection - Medalha de Ouro - Flórida -EUA1989 - Chapel Arte Show - XXII Exposição de Arte Contemporânea, 4 primeiros prêmios - São Paulo
1990 - Participação no Clube Skultura, com a obra "Figura Ecológica" - São Paulo 

Para conhecer mais do trabalho de Cássio Lázaro ou contratar seus serviços, acesse: http://www.cassiolazaro.com.br

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