03/07/2013 13:03 - Atualizado em 31/10/2017 09:49

Crítica

O doce lirismo do cinema iraniano

Devido à censura islâmica, os cineastas frequentemente retratam as mulheres e o tempo, problemas de relacionamento, as pequenezas da vida e um envolvente drama romântico

Iveilyze Oliveira
Iveilyze Oliveira
Arte de Escrever
O filme Cópia Fiel mistura a área dos sentimentos humanos com a sensibilidade da arte (Foto: Reprodução)

Desde os anos 80 o cinema iraniano conquista um espaço considerável no meio cultural e artístico. Cineastas como Abas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi, Samira Makhmalbaf são alguns nomes que conseguiram desvincular a imagem das guerras do Irã com uma poética doce, simples e sincera.

Kiarostami, realizador de filmes como E O Vento Nos Levará, Onde é a Casa de Meu Amigo, Sabor de Cereja, ABC da África e Dez é o mais conhecido e premiado em importantes festivais de cinema internacionais. O filme Gosto de Cereja (1997) foi a obra que transformou Kiarostami em grife e o cinema iraniano em moda.

O Irã produz em média 125 filmes por ano e possui uma sala de cinema dedicada exclusivamente aos curtas-metragens apesar da censura política, econômica e religiosa. A classe cinematográfica conseguiu aprovar a lei que diminuiu os impostos dos filmes de 15% para 0,5% permitindo um retorno maior para investir nas produções. 

Mesmo assim, a censura é rígida: os roteiros devem ser aprovados por um conselho de acordo com os fundamentos islâmicos e a lista do elenco deve ser aprovada. Quando pronto, o filme é enviado ao Conselho de Censura do Governo que pode aprovar, exigir mudanças para liberação ou proibir totalmente. Se aprovado, os produtores recebem permissão de exibição com a avaliação e definição se podem ou não comercializá-lo para a televisão. 

A cada contato com o cinema iraniano a surpresa é interessante. Assim foi com Cópia Fiel, que esta semana encontrei nos meus arquivos. Foi o primeiro filme de Abbas Kiarostami rodado fora do Irã (especificamente na Itália) e que não perde as características frequentemente retratadas pelo cineasta: as mulheres e o tempo, problemas de relacionamento entre um casal, as pequenezas da vida e um envolvente drama romântico.

"A qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê", argumenta no começo do filme o escritor inglês James Miller (personagem de William Shimell) que está na Toscana para divulgar o seu livro, intitulado de Cópia Fiel. O escritor defende a tese que uma cópia vale tanto ou mais que um original. James precisa voltar para a Inglaterra, mas antes aceita de Elle (Juliette Binoche), uma francesa dona de galeria que há anos vive na Itália com seu filho, um convite para passear pelas ruazinhas de Lucignano. Passando por um café, os dois são confundidos como marido e mulher, e por brincadeira começam a encenar esses papéis. O momento dessa virada é essencial: James e Elle andam por uma viela antes deserta, mas que de repente se enche de várais mulheres e barulho de crianças. É como se atravessassem um portal para o neo-realismo.

James Miller tem a função de filosofar contra o "eterno" da arte e contra a mistificação. Elle evidencia a cada instante em seu rosto o peso dos anos mal vividos. Juliette Binoche, a Mona Lisa de Kiarostami, tem uma beleza tão comum e ao mesmo tempo tão profunda que é inevitável não chamar a atenção com sua atuação perfeita que lhe rendeu prêmios em Cannes e outros de melhor atriz.

Cópia Fiel tenta responder: O que é original? O que é cópia? Como um se distingue do outro? Como ir além das aparências? O valor da arte está na obra em si ou no olhar de quem a observa/emociona? O enredo do filme se mistura também com a área dos sentimentos humanos: o que é um sentimento real e como se diferencia de um sentimento imaginário? É possível distinguir um do outro? A ilusão de estar apaixonado equivale a se apaixonar de fato? As questões surgem à medida que os dois personagens andam pelo interior da Itália com reações apaixonadas e tocantes.

O curioso do filme ao terminar é a pergunta que fica em nossa mente: somos uma sucessão interminável de cópias de nós mesmos?

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