29/01/2014 21:57 - Atualizado em 20/02/2016 17:33

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O que mostram os rolezinhos

Quem sabe os rolezinhos de hoje não induzam as pessoas, jovens, famílias e os mais velhos a olharem mais para suas cidades e assim optarem por "dar um role" pelos diferentes locais que elas abrigam? 

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Arte de Escrever
Ap?s rolezinhos de jovens, lojistas pedem PM em shoppings (Foto: Para?ba.com.br)

Se são tolos e ocupam as páginas da imprensa, as atuais discussões das pessoas e este texto que escrevo, os rolezinhos são interessantes por mostrarem muito claramente alguns hábitos dos personagens envolvidos na história. 

Para quem a acompanha, ficam muito nítidas duas coisas: os jovens estão bem sem imaginação para passeios melhores e troca de ideias maiores; o governo anda sensível e impulsivo à formação de quaisquer grupos reunidos com quaisquer objetivos – e mesmo aos grupos que se reúnem sem objetivos. 

Em todas as matérias que vi sobre os rolezinhos, desde que os eventos começaram a repercutir em dezembro do ano passado, não li a respeito de nenhuma ocorrência de vandalismo, mesmo quando número maior de jovens se reuniu. 

Vi apenas o número de seguranças, e depois de policiais, aumentando, aumentando, até que jovens que nada fizeram foram levados às delegacias aparentemente apenas para renderem algumas linhas aos jornais, que reproduziram: "Não houve registro de roubo ou vandalismo. X jovens foram levados à delegacia e em seguida foram soltos". Atos desnecessários geram notícias desnecessárias.  

O que os rolezinhos fazem é aglomerar os mesmos jovens que já circulavam pelos shoppings da cidade para paquerar e se divertir. Acontece que quando esses jovens se reúnem "se transformam em um perigo", é o que parecem pensar e dizer as autoridades e os que reclamam do fenômeno rolezinho, que provavelmente minguará em pouco tempo, assim que perder as páginas dos jornais e da internet para outro acontecimento do gênero.

O evento, inclusive, é uma ótima oportunidade para os que não gostam da presença desses jovens nos shoppings – nem juntos nem separados – reclamarem. Se as dondocas que circulam avulsas no Iguatemi resolvessem se reunir para um rolezinho – um footing coletivo, melhor dizendo – será que o caso seria tratado pela mesma imprensa e pelas mesmas autoridades que discutem medidas para os rolezinhos como acontecimento cômico ou como evento socialmente perigoso? 

"Enquanto seguranças barravam as madames, lojistas permaneceram atentos a qualquer aglomeração. A orientação da administração foi fazer, quando necessária, verificação da documentação, no caso da formação de grupo de dondocas". Eu retirei o trecho repleto de "ãos" de um jornal de domingo, substituindo apenas a palavra “adolescentes” por madames/dondocas. Você consegue imaginar uma matéria assim nos jornais? Com a versão madames e dondocas? Eu não. 

Dia desses passei perto de uma loja chique que estava em liquidação de início de ano e acho que apenas naquele quadrado havia o mesmo número de pessoas que compunham todo o rolezinho do Shopping Itaquera em São Paulo. Aquelas pessoas que corriam afoitas com várias peças de roupa caindo dos braços, olhos esbugalhados e muita pressa, não eram jovens. Elas pareciam alteradas e perigosas, mas não havia seguranças ou policiais as levando para delegacias. 

Os shoppings são o símbolo-mor da diferenciação das esferas sociais. Veja o exemplo do shopping Cidade Jardim em São Paulo, que foi projetado sem entrada/saída para pedestres. Apartheid semelhante só em motéis, mas estes ainda contam com a desculpa da privacidade, a mesma benesse que parecem desejar os frequentadores estrelados que vão em shoppings sem lembrar que esses locais são públicos. 

Muitos shoppings estão barrando a entrada de jovens desacompanhados dos pais. Mas, se o shopping é o único lugar que alguns preocupados pais deixam seus filhos pré-adolescentes e adolescentes frequentarem sozinhos, não é de dar pena a decisão radical tomada pelos estabelecimentos? 

É uma clara contribuição à construção do jovem babaca, sempre grudado nas calças dos responsáveis porque "se ficar solto faz bobagem". E quem não faz? E quem não fez? Poupar os jovens de se ajeitarem com os problemas que criaram ou poupar os jovens de criarem seus próprios problemas e pagarem por isso é sinônimo de um processo educacional fechado, burro e ineficaz, porque a opressão, e não os pequenos problemas, é que causam as situações realmente problemáticas e irreversíveis. 

O momento parece oportuno para que o governo pense em oferecer à população uma boa carta de programações culturais, cursos, debates e oficinas com os artistas que o pessoal dos rolezinhos admira – geralmente rappers, MCs e outros ícones com os quais os garotos e garotas da periferia se identificam. E por que não aproveitar esses eventos, realizados planejadamente em espaços amplos e públicos, como parques e praças da cidade, para apresentar à juventude outros tipos de representantes culturais, de variados estilos? Fica a deixa.

Ademais, shopping é lugar de compras. Não existem lugares mais interessantes para encontros, diversão e passeios? Quem sabe os rolezinhos de hoje não induzam as pessoas, jovens, famílias e os mais velhos a olharem mais para suas cidades e assim optarem por "dar um role" pelos diferentes locais que elas abrigam? 

O rolezinho é bom. Quem não gosta de sair para dar um rolê? O que queremos são rolezinhos diversificados, rolezinhos para todos os gostos, sem repressão, sem preconceito.

A Colaboradora do Portal, Marina Moura, é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe no colo enquanto digita seus textos.

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