Não tenha medo de perder (e recomeçar)

Mensagem de um coração apaixonado. Imagem: Free Pik.

Começo este texto com os versos do poeta parnasiano brasileiro Olavo Bilac. Seu “Remorso”.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

*

Quando sofremos decepções a vida nos deixa marcas que são difíceis de esquecer. E desvencilhar-se da dor e da insegurança não é algo tão simples assim. Afinal, para quem “muito quebrou a cara” é quase impossível conseguir seguir com os padrões originais de fábrica.

A decepção acaba nos mostrando o que é realidade e o que é ilusão. Demora um pouco, mas a ficha uma hora cai. Quando nos libertamos de expectativas, quando aprendemos a não nos decepcionar, quando aceitamos as surpresas da vida. De um jeito ou de outro, cedo ou tarde, não somos mais os mesmos.

*

O telefone toca no mesmo horário de sempre e Lorena corre desesperada para atendê-lo. Já não era mais surpresa, pois todos os dias religiosamente Leandro ligava. Ele, que todos achavam estar apaixonado por Júlia há algum tempo. Já havia até uma enorme torcida para que ela cedesse ao interesse do insistente rapaz. Do outro lado da linha, estava ele, ansioso para ouvir a voz da amada.

– Diga que eu não estou! Não quero falar com ele! – gritou Júlia de seu quarto.
– Oi Leandro, como vai?
– Olá, sua irmã está?
– Está sim! Só um instante que vou chamá-la.

Telefone. Imagem: Free Pik.
Telefone. Imagem: Free Pik.

Contrariando a vontade da irmã e querendo bancar o cupido, Lorena disse com um sorriso sarcástico no rosto, passando rapidamente o telefone para Júlia. Leandro a convidou para sair mais tarde, contudo, apesar de sua insistência, recebera mais um “não” para sua coleção.

– Esse cara não desiste. Que saco! – resmungou Júlia.

Duas irmãs, porém, uma era o oposto da outra.

Lorena sempre foi pura emoção! Extrovertida, expansiva, e também muito intensa. O que não raramente resultava em algumas marcas indesejadas. Confusa e atrapalhada, sempre enfiava os pés pelas mãos (como diziam os antigos) e, por ser muito ciumenta, seus relacionamentos não passavam de seis meses de duração. E isso a angustiava muito.

Júlia tinha personalidade e opinião fortes! Gostava de expor suas ideias, independente de elas agradarem ou não. Também lutava pelo que queria e não era qualquer tropeço que a fazia desistir. Veio ao mundo para “mostrar seu sorriso gigante por aí”, sem se preocupar com o que os outros pensariam.

Conseguia fazer de uma derrota uma nova batalha. Sempre passou a impressão de ser uma fortaleza. Pelo menos era vista assim por todos, principalmente pelos mais próximos. Mostra-se muito bem resolvida e cheia de certezas. Sua marca registrada era do tipo que não gostava de caras românticos, que ficassem colados no seu pé igual a chiclete. Quando se envolvia com algum rapaz fazia questão de dizer: “não quero relacionamento sério, podemos nos conhecer e mantermos uma relação aberta”.

O medo não a deixava ir mais além. Desapego total meu bem!

Mas nem sempre foi assim: a desilusão bateu à sua porta porque um tipo sedutor roubou seu coração e ainda brincou irresponsavelmente com ele, o que a fez ficar mais dura e menos crédula quanto a relacionamentos. Mas será que no fundo, ela pensava desta maneira ou seria apenas o fato de não ter ainda encontrado alguém que realmente valesse a pena?

Certo dia conversando com Charlotte na praça, sua melhor amiga, com quem tinha o costume de trocar confidências e chorar suas lamúrias, foi inevitável para Júlia não falar sobre a vida sentimental.

Charlotte era uma mulher resoluta, determinada e encantadora. Ao olhar para ela a amiga tinha a sensação de que era muito frágil, mas em algumas situações suas atitudes deixavam claro que a fragilidade estava longe de ser uma característica predominante. Ela também teve um relacionamento complicado, mas não deixou se abater. Reconstruiu sua história dando um outro final.

Júlia ainda que não admitisse ou quisesse ser intitulada sonhadora era uma romântica incorrigível (tipo Dom Juan de Marco) e sempre falava sobre o sonho de casar e constituir família.

– Acho que já passou da hora de você dar uma chance ao Leandro. Ele tem demonstrado que gosta muito de você. – aconselhou a amiga.

– Ah é, por que? Porque liga na minha casa praticamente todos os dias no mesmo horário e vive me convidando para sair? Não dá para acreditar nos sentimentos de um cara que me viu apenas algumas vezes na clínica e na academia e já se diz muito apaixonado. – Júlia argumentou numa tacada só. – Ainda estou muito confusa e é difícil acreditar em alguém outra vez. No momento tenho outros planos para mim… quero aproveitar mais de mim mesma, quero pensar mais no meu trabalho, nos meus estudos e sair por aí desbravando o mundo. Além do mais, ele não tem um porte que me atrai. Sei lá, acho que precisaria malhar muito. – justificou-se.

Ela dizia isso porque Leandro era do tipo que passava a mão sobre a camisa e sentia as próprias costelas. Mas, apesar disso, não perdia seu charme.

– E não sei. Ele me parece austero, nada descontraído. Eu quero um namorado e não um pai. – ela brincava e ria.

– Você quer encontrar defeitos para justificar sua indiferença, isso sim! – a amiga sinalizou. – Admita Júlia: ele já teve outras atitudes que convenceriam qualquer mulher e não estou dizendo para casar-se com ele, apenas que dê uma chance para se conhecerem melhor. Só sei dizer que aqueles lábios de açúcar são um convite ao beijo! Arrisco dizer que logo, logo, te surpreenderá com um belo buquê de rosas vermelhas! – Charlotte estava muito convencida.

Leandro era um homem discreto, cavalheiro; não procurava chamar a atenção. Sempre muito despretensioso, culto, educado, e tinha uma linguagem aberta e convidativa; de uma bondade de fazer inveja. Um rapaz muito altruísta que se preocupava com o próximo e em fazer boas obras. Seus olhos cor de mel eram alegres e ele tinha um sorriso gentil. Era do tipo que escrevia cartas, cartas que expressavam seu amor por Júlia.

Mensagem. Imagem: Free Pik.
Mensagem. Imagem: Free Pik.

Escrever era sua maior forma de expressão:

Querida Júlia,

Se eu fosse um garimpeiro diria que encontrei o maior diamante do mundo ou a pepita de ouro mais pura. Porém, sou apenas um homem comum que se sente privilegiado por ter conhecido você. E nem esperava muito daquele dia, nem estava a fim de sair e foi exatamente nesse dia que fomos apresentados.

O fato de você estar namorando, em nenhum momento me preocupou. E embora já tenham se passado seis anos, lembro-me como se fosse hoje o entusiasmo do primeiro olá. E foi a partir dali que você passou a morar nos meus pensamentos e em meu coração para sempre.

O sentimento surgiu ao te conhecer, garota sensacional! Entusiasmado me senti renovado, cheio de vitalidade, pronto para assumir essa nova condição, reconhecendo que sim, estou apaixonado, me sinto um adolescente capaz de todas as loucuras.

Não sabe o quanto desejo ser alguém importante para você. Passaram- se dias, semanas e meses, e o tempo apenas fortaleceu esse sentimento. Lamento porque sinto que você foge, e não sabe o quanto isso me desespera, por nada poder fazer além de alimentar essa esperança em meu coração de que um dia a terei comigo.

Você é minha calmaria e minha maior inspiração. Quando me sinto consumido, afadigado, você se torna uma pintura dentro de mim que cobre minhas paredes brancas e cansadas. Tornou os meus dias mais alegres e afetuosos. Encontrei minha paz no teu sorriso lindo e sensual. Me faz perder o tino.

Devo isso a você!

É engraçado como as pessoas têm sonhos distintos. Há aqueles que desejam veemente ter um apartamento na beira da praia; ter uma determinada posição social ou profissional; chegar a determinado cargo ou ganhar muito dinheiro; ir para o destino que quiser numa temporada de férias caríssima. Muitas coisas eu diria que já alcancei, mas nenhuma delas tem valor se eu não puder desfrutar com você.

Pois é, fica tudo de lado.

Quero que venha para o meu mundo Júlia; quero que faça parte da minha história; a quero inserida na minha trajetória. Você desperta o que há de melhor em mim. Peço que não resista, que ao menos tente, que se permita, que se entregue corajosamente e esqueça todos os seus temores.

Um grande beijo de quem mais sabe te amar,

Leandro

– Essa carta realmente mexeu muito comigo. – confessa Júlia. – Achei-o bem sincero, romântico, bem convincente, meio que me desmontou. Mas posso resistir. E pare, pare de lembrar disso, está quase me convencendo, ou terei que ir ali vomitar corações. Promessas e mais promessas, sonhos que ficam só na nossa imaginação. Enganar é a especialidade deles.

– Júlia, somos amigas há muito tempo e você sabe que pode confiar em mim e sabe que sempre que te dou algum conselho é para seu bem. Amiga, já está na hora de você tentar um novo relacionamento, de se dá mais uma chance. Já faz cinco anos que você terminou com o Alexandre Quezzada. É o momento de esquecer o que ele te fez e virar a página.

O fim de um relacionamento é muito difícil e várias emoções nos atacam de forma violenta.

Há uma frase do Shakespeare que amo e tem muito a ver com o que estamos falando. Ela diz:

“Não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára, para que você o conserte”.

E não para mesmo!

– E você acha que é fácil, que é simples assim? Acha que foi fácil perceber, a duras penas, que o nosso amor foi um sonho construído só por mim? Que posso acordar e crer piamente que esse sentimento não vai mais estar aqui. Não, não é assim, Charlote. A menos que tenha descoberto um antídoto para isso.

No fundo ela sabia que Charlotte estava certa, de que era necessário recomeçar. Se algo chegou ao fim é, talvez, a nossa chance de começar a nossa história do zero outra vez! É o momento de ter coragem para abrir as portas que insistem em esconder os nossos maiores medos.

– Vamos indo. Amanhã temos mais um dia pela frente! – sugeriu.

Os melhores momentos da vida são quando somos surpreendidas; quando não estamos esperando, principalmente em dias de nada. E quem disse que ganhar flores ficou no passado? Os tempos mudaram, mas ainda há lugar para o romantismo e cavalheirismo, por isso, mandar flores possui um efeito mágico.

Era uma sexta-feira como qualquer outra, não, não era. Não até o interfone tocar e seu Adolfo abrir o portão.

– Minha nossa, parece que o amor está no ar! – disse ele, coberto pelas lindas rosas vermelhas.
– Assine aqui, por favor, as flores são para a senhorita Júlia. – disse o entregador. – Prontinho, obrigado.

Mensagem de um coração apaixonado. Imagem: Free Pik.
Mensagem de um coração apaixonado. Imagem: Free Pik.

Ao passar pelo corredor com o super buquê, até chegar à sala de Júlia, várias colegas questionavam, curiosas.

– Nossa, pra quem são essas flores? São lindas! – completou.
– Meu Deus! Esse está perdidamente apaixonado. – comentou Lidiane, encantada.
– Júlia, as flores são para você! – anunciou o homem ao entregar o buquê a felizarda, todo empolgado.
– Pra, pra mim, tem certeza? – questionou incrédula, meio tensa.
– Sim, e tem um cartão aqui.

O cartão trazia uma mensagem digna de um príncipe:

Linda, você é muito importante para mim e os meus sentimentos por você vão além de uma amizade. Ao seu lado descobri que entre o sonho e a realidade existe um espaço chamado felicidade e para que a minha felicidade se torne realidade, preciso estar ao seu lado. Aceite esse singelo buquê de flores e me dê a oportunidade de demonstrar esse sentimento e te fazer feliz!

Todos vivem por uma razão, a minha é você Júlia!

Com carinho, Leandro.

Era notável a reação dela, seu rosto se iluminara ao ler a mensagem do cartão. Ficou mais vermelha que a maça da Branca de Neve. E seu sorriso mal cabia no rosto.

Júlia não queria ter que admitir, mas já estava rendida aos encantos de Leandro. As lágrimas que Alexandre Quezzada a fez derramar já estavam ficando no arquivo morto de suas memórias. Parafraseando Machado de Assis: “Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!”

E ao chegar em casa, desta vez não foi o telefone que tocou, e sim, a campainha. Leandro, fielmente no mesmo horário, porém desta vez, pessoalmente.

Júlia abriu não só a porta de seu apartamento, como também naquele dia, abriu a porta de seu coração.

– E então, para onde vamos? – perguntou ansiosa.
– Deixe-me surpreendê-la mais uma vez!

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