Conto: A consciência do culpado

Cena do filme Frankenstein, de Mary Shelley. Imagem: Internet.

– Isso só pode ser brincadeira! – Juliano esbravejou ao ler o bilhete que foi deixado para ele na recepção do prédio onde trabalha.

Ele havia acabado de descer do sétimo andar para ir almoçar, quando a recepcionista o chamou por nome e sobrenome, e lhe entregou o pequeno envelope branco.

– Quem deixou isso aqui? – questionou à moça.

– Foi um motoboy. Apenas entregou e foi embora.

Bloquinho para bilhete. Imagem: Internet.
Bloquinho para bilhete. Imagem: Internet.

O bilhete dizia que sua noiva, Mariana, havia sido sequestrada às 12h13 daquele dia e que se ele não atendesse a todas as exigências que seriam feitas, nunca mais voltaria a vê-la.

Quando Juliano olhou para o relógio era exatamente 13h15, ou seja, o tal sequestro havia acontecido há pouco mais de uma hora. Ele logo sacou o celular do bolso, ainda na recepção do prédio, e começou a ligar para Mariana. O telefone constava como desligado.

Juliano correu para a saída do prédio e tentou uma nova ligação para a casa da noiva. A mãe dela atendeu depois do quarto toque.

– Dona Marta, a Mariana está em casa? – nem ao menos cumprimentou a futura sogra como era de costume fazer.

A mulher, de maneira gentil, respondeu.

– Oi, meu filho. Como você está? – disse, afetuosamente. – Eu demorei para atender porque estava na cozinha. A pia estava cheia de louça. Eu saí cedo e voltei há pouco.

Juliano, tenso do outro lado da linha, mas tentando conter seu ímpeto nervoso, cortou a fala da mulher, insistindo na pergunta inicial.

– A Mariana está em casa?

– Ela saiu assim que eu cheguei. Disse que ia ao banco porque…

– Que banco? – ele a cortou novamente.

– Acho que naquele que fica no Centro. É onde ela tem conta… está tudo bem? Parece um pouco nervoso.

– Ela foi sozinha, foi de carro ou transporte público?

– Que eu saiba foi sozinha, e de carro. Disse que na volta ia passar na feira para comprar umas frutas e verduras… desde que começou com esse negócio de ser vegetariana, toda semana é uma coisa nova para fazer…

– Ela levou o celular?

– Levou. Você sabe que ela não anda sem aquele celular. É um vício terrível. – disse, brincando. – Mas você está tudo bem? – insistiu na pergunta.

– Sim. É que preciso muito falar algo urgente com ela e não está atendendo o telefone.

– Se estiver dentro da agência, acho que não pode atender. Os seguranças do banco são chatos.

– Ok, vou tentar de novo. – desligou sem ao menos se despedir.

Juliano passou a mão pelo cabelo, ansioso e tenso. Sua testa já estava suada. Novamente insistiu, ligando no celular de Mariana, e novamente a ligação não se completou. Resolveu pegar seu carro, que ficava em um estacionamento a 10 metros dali. Atravessou a rua correndo, sem nem olhar em direção ao semáforo, e andou tão rapidamente que pareceu chegar ao local em segundos.

Quando estava se aproximando de sua vaga, percebeu um papel preso ao para brisa do carro, como aqueles flyers de propaganda que são deixados propositalmente. O pegou intuitivamente e, ao avaliar o papel, percebeu tratar-se de uma pista do “sequestro” e não a um panfleto de propaganda.

“Espero que tenha apreciado bem a leitura de Frankenstein, ‘Dr Victor’. Eu sou o monstro que você criou”. – era o que o bilhete sem assinatura dizia. 

Do que se tratava aquele bilhete, afinal? Qual era o sentido daquela frase? 

Começou a buscar em sua mente o enredo do livro Frankenstein. Sabia do que se tratava, já que era uma história universal que todo mundo conhece, mas na verdade não chegou a lê-lo, então, aquele enigma não lhe dizia exatamente o que a pessoa por trás dele estava insinuando.

Capa do livro de bolso Frankenstein. Imagem: Internet.
Capa do livro de bolso Frankenstein. Imagem: Internet.

Tentou se lembrar de uma aula de literatura que teve com uma professora que amava os livros clássicos. Como era mesmo o nome dela? Não conseguiu se lembrar. Também não tinha muita importância agora. O que ele precisava era compreender o que aquela frase tinha a ver com ele e com o possível sequestro da noiva.

Entrou no carro e logo deu a partida. Ao olhar o relógio, percebeu que quase 20 minutos já haviam se passado. Parecia um trilhão de horas diante de seu desespero.

Saiu dirigindo o mais rapidamente que pode. Seu objetivo era chegar logo ao banco e constatar que a noiva estava sã e salva, e que tudo aquilo era um grande engano ou brincadeira de mau gosto.

Juliano avistou a agência bancária quase 15 minutos depois que saiu do estacionamento. Assim que parou o carro meio atravessado numa vaga para idosos, saltou do veículo e passou pela porta giratória como um raio. Foi diretamente à mesa do gerente, ignorando os outros clientes que aguardavam para ser atendidos. Ele não podia esperar.

Falou rapidamente com o homem que já o conhecia e soube que Mariana não havia estado na agência naquele dia.

– A última vez que atendi sua noiva foi há duas semanas. – foi a colocação do homem de óculos sentado à mesa.

Juliano coçou a cabeça e ficou ainda mais tenso e preocupado. Aquilo só poderia ser um engano. Ele foi confundido com outra pessoa, alguma situação complicada e perfeitamente explicável. 

Mas o que poderia fazer agora?

Voltou para o carro e ainda levou uma bronca de um senhor de idade que o viu tirando o carro da vaga especial. Juliano nem ouviu direito as palavras do vovozinho.

Cinco minutos depois ele novamente ligou para a casa da noiva e dona Marta disse que a filha ainda não havia voltado.

– A senhora sabe em qual mercado ela ia passar?

Sem que a mulher percebesse sua real motivação naquela pergunta, anotou o nome dos possíveis mercados e se dirigiu para o endereço que estava mais próximo dali, segundo o GPS apontava.

Rodou o mercado inteiro e até pediu para anunciarem no alto falante o nome de Mariana Aguiar. Nem um sinal dela ali. Foi para o próximo endereço e novamente não conseguiu encontrá-la. Ainda tentou contato com duas ou três amigas dela e nenhuma tinha falado com a moça naquele dia.

Que desespero!

Como nova alternativa para entender tudo aquilo, ligou para sua irmã. Ela sempre gostou muito de leituras. Assim que a moça atendeu, foi logo descarregando.

– Priscilla, me conta o que acontece no livro Frankenstein. – pediu.

– Por que quer saber disso? – ela se mostrou surpresa. – Não me diga que está interessado em literatura! – brincou.

– Me conta logo, por favor. Não tenho muito tempo agora.

Embora a moça não tenha entendido nada, fez um resumo bastante detalhado sobre o enredo do livro, demonstrando entusiasmo e muita admiração pela obra.

– E como termina a história? – sua pergunta é carregada de apreensão. – Ele mata a esposa do Victor?

Cena do filme Frankenstein, de Mary Shelley. Imagem: Internet.
Cena do filme Frankenstein, de Mary Shelley. Imagem: Internet.

– Mas isso seria um baita spoiler, Juliano. – diz em contestação. – Melhor você ler e descobrir sozinho, não? Por que todo esse interesse no livro da Mary Shelley de repente?

Embora não quisesse contar o final do livro, a irmã de Juliano acabou cedendo ao pedido do irmão e compartilhou os detalhes do desfecho.

Quando retornou ao escritório depois de quase três horas de “almoço”, foi interpelado por seu chefe que o aguardava já irritado.

– Espero que você tenha um bom motivo para ter “esquecido” da nossa reunião com os clientes novos. – disse em tom reprovador e irônico. – Eu te liguei duzentas vezes! Passei uma vergonha danada hoje. Pode me dizer o que aconteceu? 

Não. Ele não podia!

Juliano não tinha como justificar sua ausência daquela maneira. Ele nem sequer havia ainda entendido o que de fato estava acontecendo. Sua cabeça latejava cheia de dúvidas. Buscou várias lembranças em sua memória, mas não conseguiu se lembrar de nada que pudesse lhe deixar alerta. 

Será que o ex-namorado de Mariana poderia estar por trás de tudo aquilo? Ou talvez alguma colega ciumenta do trabalho depois que ela foi promovida? 

Ele tinha que “desvendar” tudo aquilo antes que fosse tarde demais. Já tinha ido a vários locais e nada de encontrá-la. Foi, inclusive, à casa de Mariana e não obteve sucesso. Apenas deixou a mãe da moça apreensiva também. A moça simplesmente estava “desaparecida” desde que saiu de casa para ir ao banco.

Assim que entrou em sua sala de trabalho, uma colega se dirigiu a ele.

– Uma pessoa já ligou várias vezes para falar com você. Disse que era urgente, mas não quis deixar o nome.

Os olhos dele estavam arregalados diante dela.

– Você está bem? – ela percebeu algo estranho no semblante dele.

– Essa pessoa deixou algum recado?

– Sim. Disse que te mandou um e-mail urgente e estava aguardando retorno.

Imediatamente ele ligou o computador e acessou sua caixa de e-mails. Logo deparou-se com uma foto anexa que lhe deixou perturbado.

*

Quarenta e oito horas já haviam se passado desde o desaparecimento de Elizabeth, irmã gêmea idêntica de Mariana. A polícia foi acionada e estava colhendo depoimentos de pessoas próximas, da família e colegas de trabalho, e checando possíveis pistas.

Juliano se sentia aliviado pela noiva estar bem e salva de qualquer perigo aparente, mas ao ver o desespero da família pelo sumiço da futura cunhada – e não podendo compartilhar com ninguém sua possível responsabilidade ou participação naquilo – estava à beira de um colapso de nervos.

A pessoa por trás do sequestro era muito sádica: fez Juliano acreditar que Mariana era o alvo e, enquanto ele corria atrás de pistas falsas, a verdadeira vítima foi abocanhada.

*

Quando adolescente Juliano foi um cara bem complicado: gastava muito do seu tempo fazendo brincadeiras maldosas e desrespeitosas com colegas na escola, e depois no cursinho que frequentou por três anos. Apesar de algumas brigas e machucados no corpo, ele nunca se arrependeu disso.

Quando estava no último ano da escola, ele e seu colega Peterson (comparsa de maldades) pegaram um colega novo “para Cristo” e infernizaram a vida do adolescente de todas as formas que puderam. O jovem era muito tímido, mirrado, tinha uma série de problemas familiares e pouquíssimas pessoas a quem pedir ajuda.

Juliano e Peterson se aproveitavam da fragilidade física e psicológica do garoto e o provocavam no intervalo. Certa vez o cercaram no pátio e após algumas brincadeiras e empurrões, acabaram por baixar a calça de moleton que ele usava, deixando-o apenas de cueca na frente do colégio todo. Diante de muitas risadas dos estudantes, o garoto saiu chorando, muito envergonhado pela humilhação pública que sofreu.

Juliano e Peterson foram suspensos por três dias.

O rapaz saiu da escola e ninguém mais soube dele. Antes, porém, deixou um recado para sua dupla de algozes: Isso não vai ficar assim!

Juliano riu e debochou da “ameaça” do colega mirrado quando soube por outros garotos que ele tinha saído da escola:

– E o que aquele esquisitinho pretende fazer? Chamar a mamãezinha dele? – questionou erguendo os ombros.

Nunca mais Juliano soube de Peterson e muito menos do jovem com quem praticavam bullying.

Os anos se passaram, Juliano foi para a faculdade, conheceu novos amigos, começou a trabalhar, formou-se. Conheceu Mariana e se apaixonou rapidamente. O casamento estava marcado para cinco meses à frente. Nos primeiros meses de relacionamento, ele ainda confundia Mari com Elizabeth – sua irmã gêmea. O convívio com Mariana e sua família contribuíram muito para que ele se tornasse um homem muito melhor nos dias atuais.

Frankenstein. Imagem: Free Pik.
Frankenstein. Imagem: Free Pik.

O colega sem nome do passado se fez passar por entregador de pizza e deu dois tiros em Peterson, quando este abriu o portão de sua casa para receber a encomenda. Um tiro foi no braço direito; o outro acertou em cheio a garganta, deixando-o jogado ao chão completamente ensanguentado.

A foto que veio no e-mail de Juliano era do colega Peterson morto. Num primeiro momento não significou nada – afinal, ele não conhecia aquele homem morto jogado ao chão. Mas depois do desaparecimento de Elizabeth e das pistas que recebeu, conseguiu juntas as peças que davam sentido àquele quebra-cabeças.

Peterson ficou adulto, mas continuou sendo um homem intolerante e violento. Foi preso algumas vezes e não tinha família. Por conta disso, seu algoz da infância achou melhor meter duas balas nele e dar o assunto por encerrado, afinal, ninguém iria reclamar sua morte ou sentir saudade.

Quanto a Juliano, o vingador tinha um plano mais elaborado.

Após ler Frankenstein estava certo de que a maneira mais fácil de fazer alguém decente sofrer era atingindo pessoas que ele ama. E, assim como o personagem criado por Mary Shelley, Dr Victor sofreu muito com a culpa pela criatura que inventou e não pode controlar depois.

O colega humilhado na escola permitiu que Juliano achasse que a noiva havia sido sequestrada, quando na verdade raptou a irmã gêmea dela. Como Juliano já não era aquele cara babaca de anos atrás, resolveu brincar com sua consciência, mostrando a ele que suas atitudes da juventude o conduziram para aquilo.

No e-mail, a mensagem era clara.

“A moça fica comigo até eu achar conveniente. Se abrir o bico para qualquer pessoa, ela morre em segundos e te mando a foto por e-mail. Você terá de arcar com isso para o resto da vida.

Que coincidência incrível ela se chamar Elizabeth, não? Você me criou Dr Victor Juliano Frankenstein. Agora, conviva com isso!.”

Assinado: O Monstro

2 comentários em “Conto: A consciência do culpado”

    1. Que bom que gostou. Há alguns filmes que trouxeram essa história. Confira também o livro. Ele é simplesmente fantástico. Obrigada pelo comentário. 🙂

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