Crônica: A lição que aprendi com a Borboleta Atíria

Capa do livro "O Caso da Borboleta Atíria" na biblioteca do bairro. Foto: Juh Oliveira

Foi minha iniciação na literatura nacional e no mundo encantado dos livros fantásticos.

Nove ou dez anos de idade, terceira série numa escola nova, colegas que tinham hábitos bem diferentes dos meus, cidade grande que mais parecia o prelúdio de um filme de terror. E olha que nessa época eu não fazia a menor ideia do que significava a palavra “prelúdio”.

Todos naquela classe de quase quarenta alunos pareciam, de alguma forma, ricos aos meus olhos tímidos e indefesos. Se considerarmos como “riqueza” poder participar dos passeios que a escola organizava ou mesmo comprar material escolar sem ter de parcelar em duzentas e quarenta vezes e ainda pechinchando muito com os vendedores das lojas, sim, todos ali estavam numa situação superior à minha.

Minha professora era uma mulher branca, obesa e intolerante com bagunça. Costumava fazer comentários nada produtivos sobre festas de aniversários que ia aos fins de semana. E olha que ela tinha uma agenda badalada. Quem levou o melhor e o mais caro presente e quem compareceu apenas para desfrutar da festa e comer sem pagar nada. Os comentários dela sempre iam por essa linha. Algumas vezes eu nem compreendia – no auge da minha inocência infantil – o que afinal aquela mulher queria dizer.

Como é difícil ser uma criança pobre em meio a tantos outros – que embora pobres também – ostentavam uma condição melhor de vida do que a minha ou talvez, melhor travestida (penso hoje). E foi assim que me detive – quase resignada – com uma situação complicada numa infância que já não prometia muitas coisas: precisava ler um livro infantil para realizar uma prova de português. Acreditem: isso desencadeou uma Odisseia digna de Homero.

Confesso que precisei recorrer ao tio Google para me lembrar do enredo da história. Recordo-me apenas do nome do livro e claro, de algumas lições que ele me trouxe até aos dias de hoje. Coleção Vaga-Lume, autora Lucia Machado de Almeida (falecida em 2005), livro “O Caso da Borboleta Atíria”.


O enredo apresenta um crime que acontece no mundo dos insetos. A noiva do Príncipe Grilo foi assassinada. Os mesmos criminosos sequestram a borboleta Atíria. Quem seriam eles e qual o motivo do crime? – parece incrível, não? Nem consigo agora pensar a respeito.

Foi minha primeira leitura obrigatória na escola, até onde minha memória me permite buscar. Foi também minha iniciação na literatura nacional e no mundo encantado dos livros e das fantásticas, incríveis, sofridas, envolventes, misteriosas e encantadoras histórias que nos transportam para outros lugares, outras épocas, que simplesmente nos tiram daqui e nos apresentam de forma desafiadora e às vezes magistral a personagens que ora se tornam nossos melhores amigos e em outros momentos, conseguem até nos fazer odiá-los (como se fossem reais). Faço aqui meu agradecimento àquela professora obesa e inconveniente, que mesmo sem saber ou intencionar, também contribuiu para desenvolver em mim uma paixão avassaladora pelos livros que até hoje detenho.

A leitura em si não me causou nenhum espanto ou desafio ímpar. Espanto mesmo foi constatar que meus pais não podiam comprar o livro de jeito nenhum, por mais barato que fosse, em razão da situação financeira precária que nos encontrávamos. (Não sei se já leram a outra crônica que escrevi  “Lembranças da minha infância clandestina”. Ela só atesta o que relato aqui).

Até me lembro de meu pai dizer algo do gênero “por que os professores ficam inventando essas coisas? Quando eu estudei não era assim” e minha mãe retrucando do outro lado com sabedoria e tolerância “os tempos mudaram e nós só estudamos até a quarta série. Nossos filhos precisam estudar mais do que nós”.

Bingo!

A realidade era dura! Vida modesta com aluguel de dois cômodos para pagar, supermercado para fazer, contas de água e luz a vencer e meu pai fazendo bicos e ganhando trocados ínfimos que mais davam brechas para brigas familiares do que suprir esses fins.

A prova estava se aproximando e meus colegas liam o livro por obrigação, sem nenhuma dificuldade e também sem demonstrar qualquer interesse ou apego pela leitura. Quase todos compraram, quase todos podiam adquiri-lo. Quando me perguntavam sobre como andava a minha leitura, meus olhos baixavam-se ao chão na tentativa de encontrar um buraco para me esconder e de forma envergonhada, eu dizia quase sussurrando que “estava esperando uma colega terminar de ler para depois me emprestar”.

A réplica era automática, certeira e pontual, independente de com quem conversava. “Mas por que você não compra?”. Às vezes ainda davam o tiro de misericórdia (sem misericórdia alguma), que era capaz de acabar com meu dia e até com minha semana, dependendo do tom da voz: “é tão baratinho”.

Não me diga! ^

Contas para pagar. Imagem: Free Pik.
Contas para pagar. Imagem: Free Pik.

Até poderia ser baratinho ou quase de graça para eles… mas não era para mim…Para mim era o equivalente a um par de sapatos novos. E se meus pais tivessem de optar, comprariam o sapato para eu não ir descalça para a escola. Parece engraçado olhando agora, mas asseguro que naquela época não era mesmo.

Quando finalmente consegui pegá-lo emprestado com essa amiga – que muitas vezes depois disso, me emprestou outros livros e materiais escolares que precisei, não sei se por dó ou generosidade (prefiro acreditar na segunda opção) – a prova já estava marcada e bem próxima. Eu precisava correr com a leitura e prometi devolver alguns dias antes do exame para dar tempo dela reler ou pelo menos folhear mais uma vez.

Em resumo, eu precisava correr uma maratona inteira, ultrapassar vários obstáculos e cruzar a linha de chegada com maestria sem, entretanto ter, qualquer preparo para tal. Como faria isso? Seria uma aventura solitária e apressada e ainda correndo o risco de não conseguir concluí-la com êxito. Conseguem imaginar um drama mais dolorosos para uma criança?

Foi então que minha mãe, minha preciosa mãe, teve uma ideia ousada e inusitada que se estendeu ao coletivo e pareceu resolver de maneira criativa aquele drama familiar que já estava dando o que falar na escola. Eu não poderia ter o livro, certo? Mas poderia copiá-lo num caderno para mim. Ou não? Foi exatamente o que ela propôs.

Não sei quantas páginas esse livro tem e também não me lembro quase nada da história (já faz muito tempo). Mas me lembro da singeleza do gesto de minha mãe, que não somente me ajudou a copiá-lo, como também me contava as partes que ela lia (quando copiava), para eu não me atrasar no processo.

Livro: Imagem: Free Pik.
Livro: Imagem: Free Pik.

Além disso, também envolveu meu irmão no desafio familiar. Foi uma leitura realizada por nós três, ainda que em partes, sendo que a maior parte foi copiada e lida por mim, óbvio. Quando eu não aguentava mais copiar e minha vista já não via mais nada à frente, minha mãe assumia a tarefa. Na sequência, meu irmão o fazia. E assim, em menos de duas semanas eu havia lido o livro por inteiro. Aliás, nós três havíamos lido (o que foi ainda melhor).

Meus colegas podem ter comprado o livro sem nenhuma dificuldade… mas posso apostar que nenhum deles viveu uma experiência tão singular como a minha.

Na escola, acabei comentando por pura ingenuidade (para não dizer burrice crônica) que estávamos copiando o livro. Pobre ilusão a minha achar que eles eram capazes de compreender ou mesmo respeitar aquilo.

O que mais ouvi foi uma interjeição de espanto e indignação “Você é louca, pra quê isso?”

Hoje penso que eles também eram crianças, assim como eu e, portanto, também não sabiam ao certo o que aquele gesto significava.

Só sei que no final das contas eu tirei uma boa nota na prova e tive o livro para mim, de um jeito diferente, mas ainda assim, todo especial. E que, lembrando-me agora de como foi, sinceramente me sinto agradecida à vida.

6 comentários em “Crônica: A lição que aprendi com a Borboleta Atíria”

  1. Ola, boa tarde!
    Super me identifiquei com seu texto, em tudo! Confesso que passou um filme na minha cabeça…a mesma dificuldade: ler o livro desejado…calçar, ou vestir. Para um pai de cinco filhos como o meu, sendo eu a mais velha, passei por isso também. Assim como você, cresci lendo essas maravilhas da coleção vaga-lume. Ah quantas recordações e saudades seu texto me trouxe.
    Abraços!

    1. Que coisa linda, Alessandra. Obrigada por compartilhar. A gente sofre, sobrevive, batalha, labuta, vence e aprende. Graças a Deus por isso. Como eu disse, não foi fácil (para uma criança é muito estresse e fatiga), mas olhando para trás agora, valeu muito a pena. A literatura me encanta também por isso. Por unir pessoas, histórias, sentimentos e experiências. Os livros aquecem nossa alma. Bendita Série Vaga-Lume. Bem-vinda por aqui, Alessandra. Confira outros textos depois. Beijo! 🙂

    2. Boa noite minha querida, motivadora de sentimentos nobres e nostálgicos, certo de que alguns tristes, mas que com toda certeza produziram um caráter forte. Muito gostosa a leitura, além de nos fazer entender mais do porquê das situações da vida. Lembro-me de dois textos bíblicos que me inspiram a olhar com bons olhos a vida que tivemos, são estes: Ec 3:1-5 e Rm 8:28-29. Nada é em vão. Bem melhor ser simples do que sábio, pois Cristo escolheu os pobres e simples. Abraço!

      1. Que lindo! Obrigada pelas palavras. Essas lembranças nostálgicas nos acompanham e nos fazem pessoas melhores. E amém, porque tudo Deus pode transformar e modificar para se tornar em “nosso bem”. Seja bem-vindo por aqui. 🙂

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