Resenha: Embora inventada, trata-se (ainda) de história real

Cadela Baleia em cena do filme "Vidas Secas". Imagem: Internet.

Qualquer leitor que se preze mergulha na leitura que realiza. Não é simplesmente ler por ler. É sentir, compreender, sofrer, muitas vezes chorar e outras tantas rir pela trama contada nas folhas que seguem, além de mergulhar no universo dos personagens, novos amigos conquistados.

E talvez por ser tomado tão profundamente pela leitura é que seja tão difícil acreditar que aqueles personagens ou aquela história não existiram, que tudo não passou de uma ficção, uma bela e criativa invenção do autor.

É assim que me sinto em relação a algumas obras!

Livro "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. Imagem: Internet.
Livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos. Imagem: Internet.

Fabiano é um nordestino pobre e ignorante que desesperadamente procura trabalho para prover o sustento básico de sua família. Ele consegue emprego como vaqueiro na fazenda de um patrão desonesto e rígido. Por ser um homem bruto, com enorme dificuldade em articular palavras e pensamentos, aceita com resignação às más condições de trabalho e intenções do patrão.

Sinha-Vitória, sua esposa, se sai melhor em alguns pensamentos e diálogos, embora restritos a poucas expressões. Uma mulher forte e de palavras duras, que auxilia o marido em muitas tarefas e afazeres.

O casal tem dois filhos, meninos pobres e sofridos desde o nascimento. Alheios a tudo ao seu redor, são também incapazes de perceber a própria miséria em que vivem. A família tem ainda um animal de estimação: a leal cadela chamada Baleia, que alegra as crianças e protagoniza uma emocionante cena na narrativa.

Abaixo um trecho do filme:

Esses personagens representam os retirantes do livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, autor alagoano nascido ainda no século XIX, falecido em março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer no pulmão.

O autor marcou a literatura brasileira com obras que retratam a vida do homem nordestino no sertão. Fez parte da 2ª fase do Modernismo no Brasil, que teve o regionalismo como principal característica.

Vidas Secas foi escrito entre 1937 e 1938 e publicado originalmente em 1938. Narrado em terceira pessoa, a obra começa com a fuga da família da trágica seca do sertão nordestino. Após sua publicação no Brasil, circulou em território estrangeiro durante um bom tempo, sendo primeiramente lançado na Polônia e Argentina, alcançando sucesso também na República Tcheca, Rússia, Itália, Portugal, França, Espanha, entre outros.

Os meninos da história não têm nomes. São chamando por Menino Mais Novo e Menino Mais Velho, para talvez evidenciar a vida sem sentido e sem sonhos que aquelas crianças levavam. A seca e a pobreza castigavam a família e não havia, de certa forma, como precisar por quanto tempo eles sobreviveriam naquelas condições.

Na feira da cidade, após um jogo de baralho, Fabiano se desentende com um soldado e é preso arbitrariamente. A figura do policial simboliza o governo e talvez com isso Graciliano queira dividir com o público a ideia de que não é somente a seca e a pobreza que fazem do retirante um “bicho”, mas também os mandos e desmandos cometidos pelas autoridades e pela sociedade, também conivente com as desigualdades sociais.

Fabiano, embora rude, admirava as palavras compridas das pessoas da cidade e tentava reproduzir algumas, em vão, pois sabia que lhe eram inúteis. O Menino Mais Novo queria ser igual ao pai, que conseguia domar uma égua. O sonho da mãe era uma cama de lastro de couro. Já o Menino Mais Velho desejava uma verdadeira amizade.

Um dos capítulos mais tristes é o que se passa no Natal, quando a família vai à festa na cidade. Fabiano tenta se comparar às pessoas e sente-se inferior: reconhece-se diferente de todos eles e isso lhe causa enorme desconforto.

Depois da missa quis ir à barraca de jogo, mas Sinha-Vitória se opôs porque não havia dinheiro sobrando para qualquer tipo de diversão. O chefe da família acaba dormindo na calçada da cidade e em seus sonhos os saldados, que para ele não representam nada de positivo, agem com desrespeito e opressão. Até mesmo em seus sonhos a realidade se mostra dura, como extensão de uma vida já determinada por sofrimentos e desigualdades.

Graciliano Ramos não faz grandes inovações linguísticas. Seu foco é na narrativa como um importante retrato da situação do homem nordestino. A escrita é clara e concisa e em certos trechos, até lembra o modo de fala mais rude do interior que retrata. Sua obra registra pessimismo e crítica social.

Vidas Secas ganhou uma sensível releitura em 1963, quando o diretor Nelson Pereira dos Santos (falecido em 21 de abril de 2018) produziu um filme homônimo, de gênero drama, carregado de simbolismo e denúncia social. O filme foi, inclusive, indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964.

Para conferir a resenha em vídeo que fiz no canal, segue abaixo:

Já conhece meu canal no Youtube? Se não, acesse abaixo:
https://www.youtube.com/channel/UCnl89MN2sU3WoJadnXoCkHg?sub_confirmation=1

Deixe uma resposta