De volta para casa: reflexões de uma ex-moradora da metrópole

Manuel Bandeira. Imagem: Internet.

Este homem na imagem acima é o poeta Manoel Bandeira. O que ele tem a ver com o texto abaixo? Já já vocês vão entender.

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Morar sozinha é uma grande responsabilidade! Uma batalha travada na unha, pode-se dizer. É também o cartão para a independência e liberdade que se deseja alcançar.

Lucy estava disposta a viver isso. Precisava disso, acreditem! Sempre se achou fora de contexto. Queria mostrar ou provar para si mesma que era capaz de assumir uma vida totalmente diferente da que levava antes.

Ela nunca tinha morado sozinha. Sempre viveu sob as asas seguras de seus pais. Até que um dia uma decisão da sua família mudou tudo. Eles resolveram morar em outro estado (um pouco mais acima no mapa do Brasil), e ela decidiu ficar onde estava, na grande metrópole. E assim foi por longos anos…

Antes Lucy preocupava-se apenas com a conta de seu celular e outras pequenas despesas do dia- a-dia. Mas logo percebeu que a história havia mudado! Seus pais tinham razão: as contas para pagar eram infinitas: aluguel, água, luz, gás, Netflix, parcelas da máquina de lavar, TV por assinatura e por aí vai…

Netflix. Imagem: Pinterest.
Netflix. Imagem: Pinterest.

Morar sozinha tem diversos benefícios e muitas obrigações também, mas isso não a faria desistir. Pelo menos não tão fácil. Teve a sorte de sair de casa com uma boa noção dos afazeres domésticos e de cozinha, mas no início preferiu passar o primeiro ano da sua aventura independente almoçando e jantando miojo, sanduíche e pizza. O motivo: não valia a pena sujar tanta louça para cozinhar apenas para ela sozinha comer. Não demorou muito até que começasse a ficar doente, com níveis de sódio altíssimos e nutrientes baixíssimos, sem contar nos quilinhos a mais registrados na balança.

A opção foi alternada para o cuscuz…rs… a saída mais criativa que encontrou naquele momento.

Lucy detestava pagar todas aquelas contas e não era nada fácil, mas não havia pior experiência para ela do que a de ‘lavar roupas’. E lavar do jeito certo não era fácil, ela rapidamente percebeu isso. Não é só jogar na máquina e pronto! Isso é apenas o que as empresas de eletrodomésticos querem que você acredite nos comerciais. Existe um micro processo dentro de um macroprocesso chamado “lavar roupa” e é necessário separar cuidadosamente cada peça antes de iniciar o árduo trabalho.

Armário de louças para lavar. Imagem: Pinterest.
Armário de louças para lavar. Imagem: Pinterest.

Lavar louça até que não era um grande problema, mas tinha dias que Lucy desejava que elas simplesmente não existissem, principalmente no inverno. Ou que de uma maneira mágica ou miraculosa elas se lavassem sozinhas. Já pensou nisso? Mas isso não acontecia e para piorar elas tinham o poder de se multiplicar como formigas sobre um pratinho sujo de doce. Os afazeres domésticos eram intermináveis e extremamente cansativos. Muitas vezes ela ia dormir muito mais tarde do que queria, porque tinha trabalhos acadêmicos para fazer e toda a rotina doméstica para administrar. Mas uma coisa a deixava feliz e motivada: a sensação de missão cumprida! Era algo libertador.

Ninguém sai incólume de uma experiência dessa! Não é um bicho de sete cabeças, mas também não se torna uma das sete maravilhas do mundo. Isso é fato. Depois de muito tempo morando sozinha e com elas as muitas responsabilidades que uma vida exige, chegou a conclusão que era hora de voltar…voltar para casa.

Eis aqui o seu regresso: “A boa filha a casa torna”

Assim como Sócrates compartilhou na máxima “Só sei que nada sei”, e o cantor Almir Sater compôs de forma inspiradora uma bela cancão que traz na letra “Hoje me sinto mais forte/ mais feliz quem sabe/ só levo a certeza de que muito pouco sei/ ou nada sei” , tantos outros que criaram suas máximas para a posteridade se valer delas diante de várias circunstâncias também tinham razão.

Manuel Bandeira também deixou sua contribuição em um belo poema: “Vou-me embora para Pasárgada”. Comumente estamos a aludir essa expressão título quando esperamos ou queremos fugir de alguma situação difícil ou coisa semelhante. Ele sabia o que dizer. “Vou-me embora pra Pasárgada” é uma espécie de grito de liberdade. Mesmo sendo um lugar inalcançável ele está presente para nos fazer sentir melhor quando nos achamos acuados.

Perdoe-me pela convicção e franqueza, mas acredito que esse poema foi escrito para Lucy. Afinal, alguém tinha que compreender a sua dor! Assim sendo, Manuel Bandeira mostra em seu poema a vida como ela é: cheia de contradições, paradoxos, ironia e sem nenhuma linearidade como muitas vezes se exige que ela tenha.

Trecho poema. Imagem: Internet.
Trecho poema. Imagem: Internet.

Enquanto a gente é criança, os pais são os maiores heróis. Contudo o tempo            passa e, aos poucos, vamos percebendo que eles, na verdade, não possuem nenhum superpoder. Ou melhor (pior, quero dizer), carregam na bagagem grandes defeitos que, inclusive, nos momentos de maior atrito e desentendimento, parecem superar em muito as qualidades.

Tomar decisões é algo difícil em qualquer fase da vida, mas tais decisões são necessárias. Ao contrário do que muitos pensam, o regresso não necessariamente uma coisa ruim.

Retornar é sempre difícil mesmo quando se quer, mesmo quando é preciso. Principalmente se na cidade de origem as oportunidades forem escassas. Em todo o momento, a vida nos coloca provas e muitas das vezes, elas conseguem ou nos fortalecer, ou enfraquecer, ou até mesmo nos parar. O que importa para nós é que sempre no final delas, sempre é possível tirar uma lição. É quando você percebe que não é tão forte quanto imaginava ser ou tão fraco que não consiga ir adiante.

Morar na cidade grande é tudo de bom, mas quem veio do interior sabe muito bem a falta que um cantinho silencioso faz. Por mais que morar em uma metrópole seja maravilhoso, a saudade da “terrinha” e dos seus hábitos é sempiterno.

Andar na rua não é um problema. Em cidadezinha é totalmente normal você andar na rua, óbvio que não dá para fazer isso no centro da cidade e principais avenidas, mas o resto tá liberadíssimo! Não há como negar, parece que tudo é mais perto, mais fácil e mais acessível. Você consegue num passe de mágica, sair atrasado para um compromisso e ainda chegar adiantado. Como não adorar?

Ir à casa de alguns amigos ficou super fácil, cada um mora a menos de 5 km de distância. Bem ao contrário das grandes cidades em que você tem que pegar metrô, trem, busão, atravessar o oceano a nado ou de barco rs… No interior dá pra ir andando, sem trânsito, sem buzinas, sem pressa…a calma reina.

Uma coisinha chata que é constante acontecer aqui na cidade pequena é que a rua está lotada de conhecidos. Não importa o lugar! No interior é muito fácil você encontrar um amigo ou um conhecido no mesmo local. Andar pela rua e falar “bom dia” para as pessoas também é algo totalmente normal.

Para quê pressa? Nas cidades menores todo mundo é de bem com o tempo, sem pressa para nada (e olha que até pouco tempo Lucy era inimiga dele). Até porque, como diz aquele antigo ditado “A pressa é inimiga da perfeição”. Deve ser por isso que as coisas no interior são tão receptivas e mais bonitas.

Todos estamos na sarjeta, mas há aqueles que conseguem ver as estrelas” disse Oscar Wilde. Algo que é incomparavelmente e indescritivelmente melhor, extraordinário e encantador: O céu, a lua e todas as estrelas! Uma noite de céu estrelado é acontecimento diário nas cidadezinhas, ao contrário das capitais que, na maioria das vezes, está com o tempo nublado ou coberto de poluição. É comum as pessoas do interior dormirem debaixo de um céu limpinho e bonito. Como não sentir falta disso?

Bem, não quero criar um roteiro e convencer ninguém a ir embora da capital para viver as experiências de Lucy rs…mas ao contrário do que muita gente pensa, cidade do interior não é “ROÇA” e a diversão não é ordenhar vacas, deitar na rede e comer pitangas.  Ledo engano!

Casa no interior. Imagem: Pinterest.
Casa no interior. Imagem: Pinterest.

Está perto dos seus e encontrar o verdadeiro aconchego não tem preço. O prazer de voltar e estar em casa é pleno, reconfortante e redentor. Especialmente quando vivenciamos nessa casa a inegociável sensação de paz que a consolida em lar.

Cabe ressaltar que voltar às rotinas, aos horários, às regras, à mobília que não é nossa, não é fácil, mas com o tempo vai-se tornando menos complicado. Mas nem sempre o conforto em estar de novo ao lado dos pais significa ser mimada e mal-acostumada. Em alguns casos isso tem explicação.

Lucy precisava disso. Voltar seria seu respirar.

E vamos combinar que resgatar o colo da mamãe, nem que seja por um tempo determinado, não faz mal a ninguém.

*Texto escrito pela colaboradora Paula Jones.

2 comentários em “De volta para casa: reflexões de uma ex-moradora da metrópole”

  1. Mais um texto maravilhoso e atualíssimo! Como a personagem Lucy disse: voltar para perto dos seus ( entes queridos… ), para o aconchego tranquilo, calmo e sossegado do seu lar, ( sem o estresse e o caos da grande metrópole… ) é muito bom e reconfortante! E estar perto da nossa mãe e de nosso pai, que tanto nos amam e que nós também os amamos, sem sombra de dúvidas, faz muito bem! Principalmente depois de termos vivido um longo período de tempo de nossas vidas sozinhos, distante deles, de tudo e de todos. Mas depois de regressarmos, o que acontece com as nossas vidas? Continuamos tendo os mesmos anseios e desejos que tínhamos quando morávamos sozinhos? ( nossas buscas, conquistas e idealizações?… ). Vivendo sozinhos, aprendemos a nos virar: trabalhar, pagar as nossas contas, passar, lavar, cozinhar e isso, mesmo depois do retorno, não tende à mudar, pois o nosso subconsciente já nos alerta para isso… ( ooops! ). Quero dizer que mesmo depois do regresso continuaremos tendo as mesmas responsabilidades e compromissos que tínhamos antes ( a não ser que alguém se disponha à fazer tudo para nós… ). Estar junto com os nossos pais é legal sim, mas precisamos construir a nossa própria identidade e conquistar o nosso próprio espaço. Iremos continuar trabalhando, passando e lavando ( mesmo que seja ajudando nas tarefas e não mais sozinhos… ) e pagando as nossas novas contas, que certamente iremos contrair. A Lucy ficou muito feliz com o regresso, mas creio que ela não quis e não quer parar… não vai estacionar ficando morando na casa dos seus pais, pois ela quer crescer, evoluir, ter seu próprio lar e alguém do seu lado para lhe ajudar à concretizar tudo isso. Creio também que a Lucy é guerreira, batalhadora e que estar perto dos seus pais agora é só uma fase momentânea… ( para esfriar a cabeça e repensar sobre a sua vida! ), mas que logo ela estará trabalhando, passando, lavando, cozinhando e pagando as suas próprias contas ( só que não mais sozinha, pois ela precisa de alguém ao seu lado para lhe ajudar e apoiar… ), pois os seus pais tá tem e já construíram a vida deles e agora é a hora e a vez de Lucy conquistar a sua própria vida. E mesmo ela estando distante novamente dos seus pais ( seja numa metrópole ou até mesmo em outra cidade próxima à deles… ), eles irão amá-la da mesma maneira como sempre a amou e ela também a eles. Felicidades para Lucy!

    1. Obrigada pelo comentário, Paulo. Voltar é sempre bom e ter para onde voltar é ainda melhor. Estamos “perdendo” a sensibilidade para ver essas pequenas coisas. Bem-vindo por aqui. 🙂

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