Resenha: Amizade, injustiça, esperança e redenção são temas tratados em “Um sonho de liberdade”

Cena em que Red consola Andy. Imagem: Internet.

Lançado no Brasil em 1995, o filme “Um sonho de liberdade” aparece entre os 25 melhores filmes dos últimos 25 anos, segundo o IMDB de 2014. Ainda no IMDB ele alcança a nota 9.3 pela avaliação dos expectadores.

De gênero drama, o filme se passa dentro de uma prisão estadual de segurança máxima, no Maine, Estados Unidos, e conta a história de amizade entre dois homens incomuns: Red, um homem irlandês, negro e pobre, condenado à pena de prisão perpétua pelo assassinato da esposa, e Andy Dufresne, um jovem e promissor banqueiro branco, condenado a duas penas de prisão perpétua pelo também assassinato da esposa e do amante dela.

Nas palavras do falecido crítico de cinema, Roger Ebert, o filme “cria uma impressão tão calorosa em nossos sentimentos que nos transforma em membros de uma família”.

O incrível Morgan Freeman é quem nos conta essa história tão emocionante na pele do personagem Red, um homem que já conhece bem as regras da prisão. Preso há 20 anos, já é veterano e possui certo prestígio com os demais colegas de cela por ser o cara “que consegue as coisas dentro da prisão”, como cigarros, baseados, bebidas, revistas, baralho e outras coisinhas dentro dos limites da razão. Condenado à prisão com apenas de 20 de idade, ele ainda tenta o benefício da condicional de tempos em tempos. Acompanhá-lo nessa jornada de pouco êxito faz o expectador desejar (e valorizar) ainda mais sua própria liberdade.

Boa parte do filme foi rodado na Penitenciária Estadual de Mansfield, em Ohio, que estava desativada na época das filmagens. Como o local estava em péssimas condições, foi necessária uma pequena reforma e adaptações para gravar o filme.

Filme Um Sonho de Liberdade. Imagem: Divulgação.
Filme Um Sonho de Liberdade. Imagem: Divulgação.

A história começa no tribunal quando Andy Dufresne (Tim Robbins) é julgado de maneira severa (e age de forma condescendente), recebendo sua condenação: duas penas de prisão perpétua. O interessante nessa narrativa é que Andy estava bêbado na noite dos crimes e mesmo tendo ido ao local armado, enfurecido e magoado, com a intenção de buscar vingança, ele alega não se lembrar de ter cometido os crimes e nós, expectadores, vamos acompanhar a história ansiosos para desvendar isso.

O promotor conduz as acusações levando o júri a acreditar que Dufresne é um homem “vingativo e calculista”, que planejou detalhadamente o crime, e por isso, merece a condenação. Mas, pelo perfil e características de Andy, é praticamente impossível que ele seja mesmo um assassino.

Nas cenas seguintes, ele se revela um homem de poucas palavras, calmamente pronunciadas, muito inteligente, meticuloso em tudo que faz e com comportamento e ações discretas. Um perfil muito peculiar para habitar a prisão, que nos conquista e instiga de imediato.

“Um sonho de liberdade” teve a sua premiére no Festival de Filmes de Toronto, Canadá, em setembro de 1994, e entrou em cartaz algumas semanas depois. Obteve boas críticas, mas pouca bilheteria. Os 18 milhões de dólares brutos do lançamento nem sequer cobriram os custos; obteve só mais 10 milhões de dólares depois de receber sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme.

Roger Ebert avaliou que o título do longa não colaborou na publicidade do filme. Em inglês “A redenção de Shawshank”, nome da prisão, e também a sinopse preliminar não ajudou a gerar interesse “um drama que se passa dentro de uma prisão”. Além disso, só há homens no elenco e a narrativa possui 142 minutos. Para Ebert, mulheres não se interessariam por um filme com essas características.

Foram necessários cinco anos para o filme se transformar num fenômeno, num best-seller comercial. Quando o Wall Street Journal publicou um artigo sobre ele, em abril de 1999, o filme estava em primeiro lugar no Internet Movie Database, numa votação mundial dos melhores 250 filmes e, habitualmente, se posiciona sempre entre os cinco primeiros.

Foto Stephen King-frank e Frank Darabont. Imagem: Divulgação.
Foto Stephen King-frank e Frank Darabont. Imagem: Divulgação.

Para quem não sabe, o roteiro escrito pelo diretor Frank Darabont nasceu de um conto dramático e comovente de Stephen King, do livro “Quatro Estações”. Esse filme foi o primeiro adaptado por Darabont, um diretor estreante e talentoso, que logo estabeleceu uma parceria com o mestre do horror, rendendo outros sucessos conhecidos, entre eles “À espera de um milagre”. Ebert completa: o roteiro é ponderado, respeitoso, sensível e emocionante, tal como a narração de Freeman.

Capa livro Quatro Estacoes. Imagem: Divulgação.
Capa livro Quatro Estacoes. Imagem: Divulgação.

O conto é o primeiro narrado no livro, intitulado “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”. Já nas primeiras linhas de um total de 139 páginas, Stephen King nos apresenta Red: “Existe um cara como eu em toda prisão estadual e federal da América, eu acho – eu sou o cara que pode conseguir as coisas para você”. Embora Red seja um homem bastante cativante é interessante observar que no livro, assim como no filme, ele não tem certeza se a condenação e a pena foram capazes de mudar seu caráter ao longo dos anos. Observem o que ele diz “se tivesse uma segunda chance, não o faria de novo, mas não tenho certeza se isso quer dizer que me reabilitei”.

Capa do filme. Imagem: Internet.
Capa do filme. Imagem: Internet.

O diretor da prisão é um homem que se intitula justo e que preza pela disciplina, desejando o melhor para os condenados ali dentro. Ele diz que acreditar em duas coisas: na disciplina e na Bíblia, mas no decorrer da história vamos nos deparar com um homem desonesto, hipócrita corrupto e muito vingativo. Há também o chefe dos guardas que é violento e trata os presos como animais, não medindo esforços para tornar a vida de alguns deles ainda mais infernal.

Andy sofre muito dentro da prisão, principalmente nos primeiros anos de adaptação, e sobretudo porque Bobs, o líder de um pequeno grupo de “bichas” simpatiza com ele e não mede esforços para “tê-lo”. Red aconselha Andy a tomar cuidado porque, segundo pondera, esse grupo nem mais “humano” é. E logo vamos acompanhar o que essa frase significa.

O diálogo do filme é rico e poderoso. Acompanhar as conversas de Andy e Red cria em nós um laço de proximidade com eles e nos faz pensar que nem tudo é o que parece. O livro e o filme também propõe uma reflexão forte sobre prisão e liberdade, sobre os muros que separam pessoas livres e condenadas, boas e más.

Um exemplo da força exercida pela prisão na vida, segurança e comportamento dos presos é o bibliotecário Brooks, um velhinho de mais de 70 anos, que cumpre pena há mais de 50 anos e recebe liberdade condicional. Diante da constatação desconfortável de que tudo lá fora agora é bem diferente de quando ele tinha liberdade, Brooks praticamente enlouquece. O drama que esse personagem vive diz muito sobre liberdade e segurança.

“Um sonho de liberdade” é um filme sobre amizade, injustiça, esperança, readaptação, perseverança e redenção, daqueles obrigatórios para os que amam boas histórias e se permitem olhar a vida por outras perspectivas.

Ele foi também a primeira resenha do canal Arte de Escrever. Ele é o segundo vídeo com maior número de visualizações. Caso ainda não tenha visto, te convido a conferir abaixo:

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