Conto: Azar é pouco

Pedro nasceu num dia frio e chuvoso, sob raios e trovões de assustar qualquer um.

Quando sua mãe estava grávida, sentia muitas dores, enjoos e ficava mal-humorada o dia todo. Para consolá-la, todos diziam que seria uma menina, já que ela sonhava com uma princesinha desde a primeira gravidez. Os pais de Pedro já tinham dois meninos e nem pensavam mais em tentar um terceiro, diante das dificuldades financeiras que enfrentavam, até que foram surpreendidos por uma nova gravidez.

Quarto infantil rosa. Imagem: Pinterest.
Quarto infantil rosa. Imagem: Pinterest.

Quando as regras femininas atrasaram muito, a mãe de Pedro logo imaginou uma linda menina para vesti-la de rosa, fazer trancinhas nos cabelos e dar muitas bonecas. O quarto foi delicadamente preparado. As paredes pintadas de rosa, o berço enfeitado com vários detalhes singelos, os brinquedos e penduricalhos dispostos no espaço. Não havia mais lugar para colocar tantos ursinhos que a criança ganhou de amigas e parentes, além de uma infinidade de vestidos, de todas as cores possíveis, para um desfile de moda infantil.

No dia em que a bolsa estourou, foi um Deus nos acuda!

O marido estava longe de casa e pegou um trânsito terrível para chegar ao hospital por causa da forte chuva. Os dois filhos, muito desastrados, não sabiam o que fazer para acudir a mulher em trabalho de parto. Quem lhe prestou socorro foi uma vizinha antipática e fofoqueira do bairro que insistia em gabar-se que sabia que a posição da barriga indicava uma varoa.

O médico que acompanhou toda a gravidez teve uma viagem de última hora e quem fez o parto foi uma médica substituta, que cheirava azedo e não tinha paciência alguma com a situação.

Contrariando todas as expectativas, nasceu um novo garoto, careca, enrugado e muito chorão.

No hospital, naquele dia, nasceram sete meninas e apenas um menino: Pedro.

A mãe olhava para a criança com os olhos marejados e um sentimento confuso: feliz e ao mesmo tempo inconformada por não ter sua tão esperada boneca.

A correria foi grande para pintar o quarto de azul e sumir com todos aqueles presentes femininos. A mãe demorou um pouco para esconder a frustração e o inconformismo; o pai logo pensou “mais um garotão para jogar bola na rua e ir à pescaria comigo”. Os irmãos ficaram apenas inciumados.

O garoto cresceu à sombra dos dois irmãos mais velhos. Enquanto eles ostentavam uma beleza que chamava a atenção das garotas, com pele cuidada, cabelos lisos, olhos quase esverdeados e um físico apresentável, que esbanjava saúde e vitalidade, nosso protagonista era pequeno e mirrado, tinha um semblante apático, os olhos baixos, quase doentes. Se pegasse chuva ou tomasse um sorvete, logo caia gripado ou tinha dor de garganta.

Não herdou o cabelo liso da mãe, nem o porte atlético do pai e ainda tinha uma pele propícia a espinhas e cravos, o que lhe causou muito sofrimento e bullyng na adolescência.

Enquanto os irmãos brigavam na rua por pipas, bolinhas de gude e pelada com os colegas, ele preferia jogos menos agressivos como futebol de botão, dama ou dominó. Também ficava horas no quarto lendo e quase não tinha amigos. Pouco falava com as garotas do bairro ou da escola, o que era motivo de chacota dos colegas sobre sua masculinidade. Nunca soube como era brigar com os garotos da idade dele na rua, por qualquer motivo que fosse.

Os avós paternos achavam o menino lerdo demais para aprender as coisas e os presentes de Natal eram sempre livros e jogos que estimulassem o raciocínio dele. Os irmãos ganhavam bolas, carrinhos motorizados, skates e uma infinidade de eletrônicos, enquanto o irmão mais novo ficava sempre com a parte burocrática.

Na escola foi chamado de “maricas” várias vezes e por mais que se esforçasse e estudasse, nunca conseguia tirar uma nota maior que sete. Mesmo fazendo aulas de reforço, mantinha-se sempre como um aluno regular.

Nosso herói tinha poucos amigos no bairro onde morava. Os irmãos sempre zombavam dele e o pai dificilmente o levava à pescaria ou qualquer outro lugar. Não era muito carinhoso e só lhe dava abraços no Natal ou aniversário.

Quando arrumou seu primeiro emprego numa padaria do bairro ficou apenas alguns meses. O dono da padaria era um senhor de quase setenta anos, que economizava palavras e era rígido com os funcionários. Sempre que pedia alguma coisa a Pedro, acabava se irritando, porque ele demorava demais para executar o serviço.

Os clientes reclamavam do atendimento do jovem rapaz porque ele sempre se confundia com o tamanho dos sacos de pão e demorava muito para atender os fregueses, causando fila. Isso quando não trocava os pedidos e informava valores errados aos clientes.

Sua primeira namorada foi com vinte e dois anos. Ela tinha os cabelos crespos e mastigava chicletes copiosamente. Não dispunha de beleza física que chamasse atenção, e ele tinha de aguentar os irmãos tirando sarro por causa disso. O relacionamento não durou muito: a família da garota desaprovava o namoro. Achava Pedro muito esquisito.

Depois de passar por muitas desilusões e decepções na vida, este homem, já com quase trinta anos, decidiu que tudo a partir dali seria diferente na vida dele. Que sua sorte mudaria.

Foi então que, como num passe de mágica, a sorte sorriu para Pedro. Deu-lhe uma gargalhada!

Casa chique com carro na garagem. Imagem: Pinterest.
Casa chique com carro na garagem. Imagem: Pinterest.

Ele cursou faculdade e arrumou um emprego que impressionou a todos da família. Com o bom salário que recebia, em pouco tempo, comprou uma enorme e confortável casa, num bairro nobre e planejado da cidade, que oferecia conforto e segurança. O local possuía uma área de lazer enorme, portaria e uma piscina semiolímpica.

Antes que todos esperassem, comprou o carro dos sonhos da família e em menos de três anos, trocou por outro ainda melhor. Começou a frequentar lugares caros e a comer nos melhores restaurantes da cidade. Shows e eventos, não perdia um. Além disso, comprava objetos caros e passou a ostentar um padrão de vida superior ao de todos da família. Conseguiu ser visto e respeitado por muitas pessoas que não acreditavam no seu sucesso ou potencial.

Matriculou-se numa academia e ganhou massa muscular, perdendo aquela aparência de mirrado e doente que lhe eram característicos. Fez um caro e eficaz tratamento de pele e quase sumiu com todas aquelas imperfeições que a adolescência cruelmente deixou.

Namorou mulheres bonitas e inteligentes, arrancando suspiros e inveja dos irmãos, – mais bonitos que ele. Seus pais e amigos passaram a frequentar sua casa nos finais de semana e se deleitavam na piscina e churrasqueira.

O protagonista dessa história deu uma reviravolta e tanto na sua vida, digna da admiração e espanto de todos.

Mas parece que a maré de azar estava apenas adormecida! Num dia não muito belo, os ventos mudaram de rumo novamente e Pedro mais uma vez voltou ao que era.

Sorte. Imagem: Pinterest.
Sorte. Imagem: Pinterest.

Ele estava elaborando uma campanha publicitária para uma grande empresa e por vários dias seguidos trabalhou até tarde. Certa noite, já cansado de tanto olhar a tela do computador, digitou incorretamente o nome da empresa num folder da campanha. O arquivo foi para a gráfica e milhares de impressões saíram com o nome errado do cliente. Ele foi automaticamente demitido. O prejuízo gerado à agência causou grande insatisfação ao seu chefe.

Uma semana antes de perder o emprego, teve seu carro roubado numa rua próxima ao trabalho. Parou o veículo por dez minutos enquanto comprava um chiclets e quando voltou, havia sumido. Como estava numa situação financeira confortável, no mesmo dia, comprou outro carro e nem sequer acionou o seguro. Agora estava desempregado e com um carro novo para pagar.

Depois que foi demitido, as portas das grandes empresas se fecharam. Ele deixava recados e mais recados, mas não obtinha retorno. Quando alguma empresa lhe pedia carta de recomendação do emprego anterior, isso era um enorme problema. Seu antigo chefe nem queria ouvir falar do nome dele.

Certa noite, ao sair do banco, o “sortudo” personagem foi assaltado por dois garotos que não tinham mais que quinze anos. Ele havia feito um saque de uma boa quantia de dinheiro. Além de ver todas as suas economias e documentos serem levados, os moleques ainda roubaram seu carro e seus dois aparelhos celulares.

Como se não bastasse, ainda lhe deram algumas bordoadas, deixando-o jogado ao chão. Ele acordou numa maca, no corredor de um movimentado e barulhento hospital público. Havia várias outras pessoas, espalhadas pelo corredor, também machucados e com a aparência de doentes. O médico lhe disse que estava tudo bem e que as dores no corpo passariam nos próximos dias. Não havia quebrado nada.

Depois desse incidente, ele recebeu duas ligações de cobrança. Haviam feito compras com seus cartões de crédito e agora estava com uma enorme dívida para resolver. Ainda tinha o prejuízo do carro novo, que sequer estava assegurado.

Desempregado, sem documentos, dinheiro e amigos, a única alternativa que ele encontrou naquele momento foi colocar a casa à venda. A casa que era seu sonho de consumo e onde pretendia passar o resto da vida. A casa que era o símbolo da sua realização profissional. A casa que era a razão dele ter conseguido o “respeito” da família. Com o dinheiro da venda, pagaria os prejuízos que teve e se recolocaria no mercado de trabalho.

Os meses foram se passando e Pedro não conseguia uma proposta adequada para a venda.

O desespero foi tomando conta e, por fim, vendeu o imóvel com uma enorme desvalorização. O casal que a comprou fez um ótimo negócio, além de ficar com boa parte da caríssima mobília. Agora ele estava morando numa pequena casa, no mesmo bairro, mas com bem menos conforto e segurança. O porteiro do condomínio diminuiu a simpatia e o jardineiro do local quase não o cumprimentava.

O “anti-herói” dessa história começou a fazer alguns “bicos” para ganhar dinheiro e tudo que conseguia, guardava numa caixa de madeira no seu guarda-roupa de solteiro. Pouco a pouco, ele foi vendendo coisas e objetos que agora não eram mais tão importantes. Até mesmo de sua enorme TV de 52 polegadas, que ele tanto amava, se desfez.

Pedro às vezes se entristecia quando pensava que, depois que entrou nessa maré de azar, nunca mais foi visitado pelos pais ou irmãos. Um telefona sequer ele recebeu de algum amigo demonstrando solidariedade. Possíveis candidatas a namoro se afastaram e bons empregos não apareciam mais.

As pessoas simplesmente desaparecem juntamente com a sorte que ele perdeu…

Foi então que o chamaram para uma entrevista de emprego numa boa empresa da cidade. Arrumou-se todo, cortou o cabelo, fez a barba, engraxou os sapatos, imprimiu seus trabalhos. Pegou um táxi e seguiu para o local e horário marcados. O motorista fez confusão com o endereço e agora ele estava quinze minutos atrasado. Tentou ligar para avisar, mas seu celular descarregou a bateria. Diante de uma enorme fila de carros parados no trânsito, resolveu descer e seguir a pé as duas últimas quadras que faltavam.

De repente, começou uma chuva grossa, com ventos fortes.

Tentando não se molhar muito, seguiu pela cobertura dos bares e restaurantes. Quando estava no semáforo esperando o sinal abrir para finalmente atravessar a rua e entrar no prédio, um carro velho e enguiçado, com um motorista desleixado e mal-educado, cobriu-lhe de água suja, de cima a baixo.

Aquele homem bem vestido e perfumado ficou todo sujo, impossibilitado de entrar no prédio. E ainda despertou o riso de algumas pessoas que passavam no local.

Ao voltar para casa, desiludo e desempregado, soube que havia ocorrido um roubo na região. E agora já era tarde demais: levaram sua caixa de dinheiro, com todas as economias que ele juntou durante longos e árduos meses. 

O que mais faltava acontecer a esse protagonista tão azarado?

Numa noite gélida de inverno, com a temperatura marcando quase zero grau, mais uma vez ele foi assaltado. Já tinha mais de sessenta anos e usava a ajuda de uma bengala para se apoiar. Nesta noite, não havia muito movimento na rua, ninguém que pudesse ajudá-lo.

Abordado por dois jovens e impacientes assaltantes, só tinha alguns trocados na velha carteira, um celular sem bateria de modelo ultrapassado, um relógio de pulso que ninguém ia querer e um chapéu fora de moda.

Pedro entrou em desespero “O que eles podem querer de um velho como eu? Vão me matar!”, pensou.

Os bandidos não usaram violência com Pedro, a não ser psicológica. Levaram tudo que puderam tirar dele, inclusive as roupas. Pedro ficou nu e envergonhado, com frio e exposto ao constrangimento do ocorrido, apenas com a bengala na mão.

Posteriormente foi ajudado por algumas pessoas que passaram pelo local.

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